Prof. João César das Neves
Há anos transcrevi neste blog trechos do livro de Richard Dawkins “A Desilusão de Deus” e fi-lo porque o autor é um dos mais eminentes cientistas e intelectual dos nossos dias e nessa qualidade teve a coragem de se afirmar como ateu e explicar porque somos religiosos e como as religiões se constituíram ao longo dos séculos em factores de ódio, violência, sofrimento, guerras e mortes para além de terem funcionado como grilhetas que aprisionaram o pensamento impedindo que ele se desenvolvesse e expressasse em liberdade.
Outra razão porque o fiz é que eu sinto e penso como Richard Dawkins
A nossa sociedade é
tradicionalmente católica e embora se perceba a importância cada vez maior do
consumismo e das naturais preocupações da juventude com o seu futuro
profissional, não a vemos deslocar-se em massa para os locais de culto em busca
da ajuda divina.
Mas continua a haver pudor em
abordar este tema porque, dizem, tem a ver com algo que as pessoas sentem como
sagrado e mesmo que não sejam crentes respeitam-no, omitem-no, se é que não o
temem.
Que as televisões passem com
regularidade missas em canais abertos e generalistas e outros programas que
contribuem para estimular e desenvolver a fé religiosa, para além de
reportagens em que durante horas são trazidas até às nossas casas as
peregrinações e as procissões da Nossa Senhora de Fátima, - nas quais em jovem também participei - parece não levantar
nenhum tipo de reacção, mesmo que nos sintamos chocados pelo espectáculo
deprimente dado pelas pessoas que se arrastam de joelhos no santuário da Cova
da Iria, ou se deslocam pelas bermas das estradas, cansadas, com os pés cheios
de bolhas mas com aquele ar estranhamente feliz no cumprimento de promessas.
No entanto, se Richard
Dawkins, aparecesse, clandestinamente, num desses canais numa prelecção em que expusesse às
pessoas o seu ponto de vista acerca das religiões e de uma maneira geral sobre
as crenças religiosas teríamos, muito provavelmente, a emissão cortada por um
qualquer motivo de natureza técnica e no dia seguinte a Direcção da RTP e o
Ministro da Tutela estariam todos à procura de novo emprego, (palavra de Paulo
Portas…) apesar de ele ser considerado um dos três mais brilhantes intelectuais
da actualidade e o seu livro ter tido quatro edições em 6 meses e vendido nesse período de tempo, mais
de um milhão de exemplares.
Nasci e fui educado no seio
de uma família católica e durante a minha juventude passei, como aluno em
regime de semi-internato, por um colégio de Jesuítas e essa passagem, embora
longínqua, tenho-a bem presente na minha memória.
Pela vida fora o “remoer”
dessa experiência e tudo o resto que fui aprendendo foi fazendo com que a
religião perdesse sentido e significado, não obstante a força, reconheço, com
que me chegou inserida na herança cultural que meus pais, avós, restante
família, professores e toda a sociedade me transmitiram.
Agradeço a R. Dawkins o seu
livro, cuja leitura recomendo, e que me ajudou a perceber aspectos essenciais do
fenómeno da crença que está na base de todas as religiões e que não se
coadunava com a lógica da evolução, a qual, através de fenómenos de selecção
natural, deveria eliminar os comportamentos que são contrários aos interesses
da espécie no que respeita à sua sobrevivência.
Fiquei a saber porque é que o
homem nasceu para acreditar e não para ser religioso. Acreditar naquilo que os
seus pais, chefes e pessoas mais velhas lhes diziam para eles fazerem ou não
fazerem evitando que aprendessem exclusivamente à sua custa com demasiado risco e demasiado tarde, muitas vezes, para as suas próprias vidas.
E tão importante era
respeitar e cumprir essas instruções que, em um determinado local do cérebro,
se desenvolveu uma predisposição que nos “mandava” acreditar, da mesma forma
que nos facultou, com idêntica finalidade de sobrevivência, a capacidade de aprender a linguagem
materna como não mais seria possível pela vida fora relativamente a outras
línguas.
Mas o cérebro, dotado com
essa característica, apurada ao longo das gerações, não tinha forma de
seleccionar as boas informações, os bons e úteis conselhos dos outras que o não eram. Por isso, acreditava que não devia tomar banho no rio porque o crocodilo
representava um sério perigo para a sua vida, da mesma forma que também
acreditava que se matasse uma cabra iria provocar a chuva.
Temos, assim, que uma
determinado atributo do nosso cérebro desenvolvido para uma determinada
finalidade que era decisiva para a nossa sobrevivência de seres fisicamente
frágeis e quase indefesos, acabou por servir também outros fins
desinteressantes que apareceram como subprodutos, da mesma forma que um
computador concebido para nos ajudar em tantas coisas úteis não consegue evitar
as “ordens” dos vírus que ele cumpre como se fossem boas porque também não as
consegue distinguir.
Foi uma grande “partida” que
o Evolucionismo, que é como quem diz, a natureza nos pregou mas o cérebro
humano foi desenvolvendo progressivamente, para além dessa capacidade /
necessidade de acreditar, faculdades de inteligência e raciocínio que
permitiram à humanidade desbravar o caminho da ciência e ir explicando as regras
de funcionamento da natureza satisfazendo, assim, uma curiosidade e um desejo
de saber sem o qual a espécie humana estaria condenada à partida.
Eu respeito as pessoas que
são crentes, que foram ensinadas desde tenra idade a serem crentes e que não se
concebem a si próprias fora dessa crença até porque, como foi assinalado por
Richard Dawkins, as pessoas são boas ou más independentemente de serem ou não
crentes apenas… com a diferença que nas chamadas “guerras santas” se mata com
mais “alegria espiritual”.
Mas seria um “mal menor”se as
pessoas se limitassem apenas a ser crentes, se exercessem a sua religião com a
descrição, e o recato daquilo que é íntimo e que por isso mesmo deveria ser
vivido em comunhão com elas próprias.
Mas dizer isto é ignorar a
natureza verdadeiramente social do homem e as religiões tornaram-se no maior e
mais importante fenómeno da história da humanidade.
As crenças transformaram-se,
inevitavelmente, em organizações estruturadas, hierarquizadas e fortemente
lideradas por pessoas altamente vocacionadas para o exercício do poder e que se
comportaram como chefes supremos de grandes exércitos de guerreiros unidos e
subordinados pela mente, pela obediência cega a uma crença.
Quando se fala hoje no
ecumenismo, no entendimento entre todas as grandes Igrejas porque, com várias
faces, o Deus é o mesmo, percebe-se perfeitamente que a grande preocupação é
salvar aquilo que é a essência do “negócio” religioso: a Fé, o Acreditar,
porque o resto, as pequenas diferenças, são pormenores que não afectam o
essencial. Acreditar, continuar a acreditar, cada vez com mais força, nem
que para isso as criancinhas tenham que decorar o Corão em vez de serem felizes
a brincarem umas com as outras, ou a rezar intermináveis ladainhas e Pais
Nossos para cimentarem dentro do espírito os dogmas relativamente aos quais
nunca terão nem deverão fazer qualquer esforço racional para tentarem
compreender porque eles são incompreensíveis.
Há uma incompatibilidade de
base entre raciocínio e inteligência que conduzem ao conhecimento científico e
a religião que é a preguiça mental, a certeza em vez da dúvida, a confiança
cega em verdades que não se discutem.
No entanto, todos conhecemos
pessoas que adoptam uma atitude fervorosamente religiosa que coexiste com uma
actividade intelectual que desenvolvem no âmbito das ciências que estudam o
social, e muito menos, as ciências da natureza.
O Dr. João César das Neves,
Prof. Universitário, conhecido economista que nesta qualidade participa num programa semanal de televisão, pessoa indiscutivelmente
inteligente, afirmava recentemente, numa das suas crónicas do jornal Diário de
Notícias,- que leio diariamente - atirando-se aos Ateus “como gato a bofe”, que «recusar Deus é
uma crença como as outras» e esta surpreendente acusação deixou-me estupefacto
por ter vindo de quem veio.
No meu caso particular fui
deixando de acreditar em tudo o que tem a ver com religiões e não percebo como
é que este “deixar de acreditar” se transformou, para o Sr. Professor, afinal, numa
“crença”.
Saber se tudo quanto
existe: Seres vivos, Terra, Sistema Solar, Via Láctea, restantes Galáxias e o
Universo no seu todo, com 15 biliões de anos de existência, são obra de um Deus
ou não, francamente, Sr. Professor é uma questão que me ultrapassa de tal maneira
que me parece ser de grande pretenciosismo pronunciar-me sobre ela, mas será
isso também uma “crença”?
Será que o Sr. Prof.
pretendia referir-se a uma “não crença” ou trata-se apenas de um ataque
insidioso que é chamar de crentes àqueles que nunca tiveram crenças ou que
delas se libertaram?
Ah!, com que então vocês não
queriam ser crentes, pois fiquem sabendo que isso também é uma crença. Bem
feita…bem feita!
Depois, o Sr. Prof.,
desenvolve uma argumentação para tentar comprovar a existência de Deus
apresentando argumentos atrás de argumentos que mais parecem tentativas
desesperadas para convencer, através da razão, daquilo aonde só vai pela fé.
João César da Neves não vai
ler o livro de Richard Dawkins porque o Professor é um teísta convicto 100% da
existência de Deus.
Nas palavras de C. G. Jung
«eu não acredito, eu sei» e, portanto, não leria nada que contrarie
frontalmente aquilo em que ele não só acredita, mas sabe.
Se se desse a esse trabalho
encontraria a desmontagem dos seus argumentos um por um mas quando se acredita
todos os argumentos em defesa da crença são bons, mesmo os mais disparatados,
enquanto que os outros, os que desmontam as nossas crenças, são falsos como
Judas.
Diz o Sr. Professor:
- «…O pior obstáculo do
ateísmo é a ausência de finalidade. Para o ateu este universo, sem origem nem
orientação, também não tem propósito. Bons e maus têm o mesmo destino vazio.
Saber que vivemos num mundo que se dirige à morte e ao nada faz de nós os mais
infelizes dos seres.»
«Se Deus não existe não
existem o bem, a moral, a própria razão…»
O Sr. Prof. tem muito pouca
auto-estima quando pensa que, se de repente a fé em Deus desaparecesse do
mundo, tornar-nos-íamos todos hedonistas insensíveis e egoístas, desprovidos de
amabilidade, caridade, generosidade, enfim, tudo aquilo que merece o nome de
bondade.
Se Vª. Exª, Sr. Professor,
concorda que, na ausência de Deus, seríamos capazes de cometer assaltos,
violações e homicídios, na opinião de Michael Shermer, o Sr. é considerado uma
pessoa imoral e “o melhor será passarmos-lhe ao largo”.
E já agora, deixe-me recorrer
a Einstein: “Se as pessoas só são boas porque temem o castigo e esperam a
recompensa então somos mesmo uma triste cambada.”
E porque vem igualmente a
“talhe de foice” transcrevo, ainda de Einstein:
- « Estranha a nossa situação
aqui na Terra. Cada um de nós vem para uma curta visita, sem saber porquê,
contudo, por vezes parecemos adivinhar um objectivo. No entanto, do ponto de
vista do quotidiano, há uma coisa que sabemos: que o homem está aqui pelos
outros homens – acima de tudo por aqueles de cujos sorrisos e bem estar depende
a nossa própria felicidade.»
Informo o Sr. Prof. João C.
das Neves que a única página da Internet que consegui encontrar, referia uma
lista dos “cristãos cientistas vencedores do prémio Nobel” em que apenas seis
eram mencionados como crentes de um total de várias centenas de prémios Nobel
da Ciência.
Destes seis, quatro nem
sequer tinham ganho o prémio e pelo menos um é um não crente que vai à Igreja
por motivos meramente sociais.
Um estudo mais metódico
conduzido por Benjamin Beit-Hallahmi «apurou que entre os galardoados com o
Prémio Nobel na área das ciências, bem como no da literatura se regista um
assinalável grau de irreligiosidade comparativamente com as populações donde
são, respectivamente, provenientes».
Um estudo da autoria de
Larson e Witham saído na conceituada revista Nature , 1998, mostrava que de
entre os cientistas americanos considerados pelos seus pares suficientemente
eminentes para serem eleitos para a National Academy of Sciences apenas 7%
acreditava num Deus pessoal.
Este predomínio esmagador de
ateus é quase o oposto do perfil da população norte-americana em geral pois,
90%, acreditam num ser sobrenatural.
Todos os 1074 membros da
Royal Society que têm endereço electrónico foram inquiridos tendo respondido
25% (que é um bom número para este tipo de estudos).
Foram-lhes apresentadas
várias proposições, como, por exemplo:
«Acredito num Deus pessoal,
isto é, um Deus que se interessa pelas pessoas, que ouve e atende preces, que
se preocupa com o pecado e as ofensas, e que profere juízos.»
Para cada uma destas
proposições pedia-se lhes que escolhessem entre 1 (discordância total) e 7
(concordância total).
Apenas 3,3% concordaram
totalmente com a existência de um Deus pessoal ao passo que 78,8% discordaram
totalmente.
Se definirmos como “crentes”
os que escolheram 6 ou 7 e como “não crentes” os que escolheram 1 ou 2 obtemos
213 descrentes para uns meros 12 crentes.
Mas deixando agora a elite
dos cientistas da National Academy e da Royal Society há outras conclusões
interessantes de trabalhos de pesquisa sobre a relação estatística entre a
religiosidade e o grau de instrução ou entre a religiosidade e o QI.
Michael Shermer, em “How we
Believe”: The Search for God in Age of Science, descreve uma grande sondagem que
levou a cabo com o seu colega Frank Sulloway, tendo por alvo pessoas escolhidas
aleatoriamente e descobriu que a religião tem, na verdade, uma correlação
negativa com o nível de instrução e com o interesse pela ciência e de maneira
muito forte com inclinações políticas mais progressistas.
Nada disto surpreende tal
como não espanta haver uma correlação positiva entre a religiosidade do
indivíduo e a dos pais. De acordo com os sociólogos, em cada 12 crianças apenas
uma se afasta das crenças religiosas dos pais (herança cultural).
Finalmente, quanto à
correlação entre a religiosidade e o QI e de acordo com os dados publicados por
Paul Bell na “Mensa Magazine”.
Eis a conclusão:
- “De um total de 43 estudos
realizados desde 1927 sobre a relação entre a crença religiosa e o grau de
inteligência e/ ou de instrução, apenas 4 encontraram uma conexão inversa. Isto
é, quanto maior é o grau de inteligência ou de instrução de um indivíduo menor
a probabilidade de esse indivíduo ser religioso ou de ter crenças seja de que
tipo for”.
Estes números, e números são
a especialidade do Prof. Dr. João César das Neves, não devem ser nada do seu
agrado quando se queixa, mesmo na parte final do seu artigo:
«A única questão interessante
é saber porque coisas tão simples foram escondidas aos sábios e inteligentes e
reveladas aos pequeninos».
Pois é, Sr. Prof., este seu
último desabafo é perfeitamente elucidativo de que em si coexistem duas
pessoas: uma que o leva a desdenhar dos sábios e das pessoas inteligentes
porque não crêem e a considerar os pequeninos (pequeninos em quê?) muito mais
fiáveis e o outro, o intelectual, que se licenciou e doutorou em economia e
que, pelos vistos, convive perfeitamente com o primeiro.
Só espero que não rejubile de
alegria quando vê nos noticiários da TV certas manifestações de fervor
religioso dos «seus pequeninos…»
É que o problema e a ameaça
para a paz e tranquilidade neste mundo resulta, em grande parte, dos «seus
pequeninos» encontrarem um qualquer líder, sedento de poder, inteligente e
ambicioso, que arrogando-se o dom de ser interlocutor de Deus, sem correr o
risco de que Ele o desminta, os arraste atrás de si e os manipule levando-os
aos actos mais atrozes contra eles próprios e contra os outros.
V.ª Ex.ª nunca praticará tais
actos, mesmo em nome da sua crença, estou certo disso, mas essa referência aos
«pequeninos», com toda a franqueza, não me soou nada bem.
Douglas Adams dir-lhe-ia:
Para si não lhe “basta ver
que um jardim é belo sem ter de acreditar que lá no fundo também esconde
fadas”.
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