terça-feira, abril 08, 2014

Doutora na agulha e na tesoura, nossa doce Dondoca....
OS VELHOS

 MARINHEIROS

Episódio Nº 49










- Formatura, estrela da noite da minha vida? Em que vais te formar? Que Faculdade cursaste?

- Na Escola de Corte e Costura de dona Ermelinda, em Plantaforma, seu boboca. Me trate com respeito que agora sou doutora...

“Com respeito, sou doutora”, estão vendo? Tenho ou não tenho razão?

Doutora na agulha e na tesoura, nossa doce Dondoca, não satisfeita de ser doutora, professora emérita, magister inter pares na ciência do amor.

Não teria hoje problemas a apoquentá-lo, o comandante. Em quatro ou seis meses, desembolsando alguns cobres, seria doutor em relações públicas, em penteados e cortes de cabelo, em administração ou em publicidade.

Não faz muito fui apresentado, na capital, a um rapaz bem falante e satisfeito de si como nunca vi outro. “Doutor em publicidade”, explicou-me ele benevolamente, ganhando cento e vinte mil cruzeiros por mês, ai meu Deus!, formado em São Paulo e Nova York.

Convenceu-me ser ele quem dirige minha vida, minhas compras, meu gosto, através da ciência e arte da publicidade, a maravilha do século.

A mais nobre das profissões actuais, garantiu-me e provou-me, aquela que está na base da produção, do consumo, do progresso do país. A mais alta forma de literatura e de arte, a última instância da poesia: o anúncio, o reclame comercial. Homero e Goethe, Dante e Byron, Castro Alves e Drummond de Andrade são insignificâncias ante um jovem bardo publicitário especializado em poemas sobre sabonetes, pastas dentífricas, geladeiras, batedeiras de cozinha, toalhas de matéria plástica.

 Na opinião categorizada do doutor em publicidade, o maior poema de nossa época, obra-prima e supra-sumo da genialidade poética, fora escrito por aquele especialista com o objectivo de incrementar a venda dos “Supositórios do Ânus Jovial”.

Um poema sublime pela inspiração, pela forma perfeita, pela força da emoção transmitida: aumentaria «em 178% a saída dos beneméritos supositórios, musa moderna.

Fosse hoje e o comandante poderia ser doutor em publicidade, até por correspondência.


Do rapto de Dorothy com um desembargador em ceroulas


O rapto de Dorothy foi planejado pelas Forças Armadas, o Coronel Pedro de Alencar e o Comandante Georges Dias Nadreau, com a activa colaboração do Estado, representado no complô pelo chefe do gabinete e pelo ajudante-de-ordens do Governador.

Coube o comando geral da complexa operação a Carol e nenhum dos grandes estrategistas da História superou-a na perfeita organização, no exacto conhecimento dos locais, no minucioso estudo dos detalhes, na escolha dos homens competentes para cada fase da empresa sigilosa e árdua.

 Se bem tenha partido do Comandante Georges a idéia da façanha, deve-se, sem dúvida, a Carol o seu êxito cabal. Celebraram o êxito de Carol com champanhe, numa esbórnia que por pouco se inscreveria na história dos cabarés e prostíbulos de Salvador, pois o Comandante Georges, ante o magnífico resultado do rapto de Dorothy, quis ampliar o esquema, aproveitando a experiência e o entusiasmo, para reviver naquela noite o “rapto das Sabinas”.

Existia, no 96 da Ladeira da Montanha, o Castelo de Sabina, pensão de mulheres especializada em estrangeiras: francesas, polacas, alemãs, russas misteriosas e uma egípcia.

Algumas delas haviam mesmo nascido na vastidão do Brasil, mas outras aportaram ao seio de Sabina após longa carreira iniciada em portos da Europa, com escalas na Argentina e no Uruguai. 

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