quarta-feira, abril 02, 2014

O Major Vasco Moscoso  de Aragão, da Cavalaria, pois a cavalo....
OS VELHOS
MARINHEIROS

Episódio Nº 44












Depois de absolver o assassino, via-se em mangas de camisa, suspensórios negros, luvas de borracha, máscara de pano a cobrir-lhe o rosto na sala de operações, era o Doutor Vasco Moscoso de Aragão, médico com estágio nos Hospitais de Paris e Viena, cirurgião (não admitia outra especialidade) famoso, mãos firmes e delicadas, abrindo a barriga do Governador ante o olhar atento e ansioso dos parentes, de Jerónimo, dos políticos, estudantes e enfermeiras.

A súbita enfermidade, o charme público, a ameaça de morte se a operação não fosse tentada imediatamente. Mas uma operação daquelas (Vasco não sabia direito de que estava operando, qual a víscera ou o órgão afectado, que parte da barriga governamental iria abrir e coser, mas eram detalhes secundários), jamais tentada na Bahia, levava o receio aos médicos alarmados ante a responsabilidade imensa.

Houvera a recusa do célebre professor da Faculdade. E a vida do Governador em perigo, os negócios do Estado em abandono, a política fervendo, a oposição esfregando as mãos na expectativa.

 O apelo dramático de Jerónimo à sua amizade e competência. O ambiente tenso na sala de operações, um sorriso nos lábios do médico, sua perícia, sua calma, seu sangue-frio e sua ciência acumulada.

Extraía da barriga ilustre um... o quê? Uma pedra enorme, já ouvira falar de pedras nos rins, qualquer coisa definitivamente mortal e incurável.

Os estudantes não resistiam, explodiam em palmas e vivas, os mestres da Faculdade vinham cumprimentá-lo.

Um homem salvo da prisão, salva a vida do Governador, transferia-se para o campo e a engenharia: Doutor Vasco Moscoso de Aragão, engenheiro-civíl, com estudos especializados e prática na Alemanha, rasgando o sertão inóspito com os trilhos da ferrovia a conduzir o progresso.

Sob o sol escaldante, em meio à caatinga bravia, à frente das turmas de trabalhadores, o suor a molhar-lhe a fronte pensativa, os obstáculos a vencer, o desânimo e o cansaço. E aquela montanha, um tanto forçada na paisagem árida e plana, a fechar o caminho ao progresso e aos trilhos.

O túnel, obra imortal, um dos maiores do mundo, citado nos manuais de Geografia. O dia da inauguração: o maquinista cedia-lhe o posto.

Ao grande engenheiro, ao homem que vencera o deserto, as montanhas e o rio, competia conduzir a primeira locomotiva revestida de flores.

Vinha Dorothy, subitamente esposa do antipático Secretário da Viação, um tipinho à-toa e metido a besta, que tratava com displicência o comerciante Aragãozinho, o amigo de Jerómino e do Tenente Lídio Marinho, estendendo-lhe dois dedos no cumprimento formal e distante; vinha Dorothy comovedoramente bela e, enquanto rompia contra os ferros da locomotiva a garrafa de champanhe inaugural, buscava com os olhos o engenheiro festejado, havia entre ele e a inesperada esposa do Secretário um tímido namoro.

O Major Vasco Moscoso de Aragão, da Cavalaria, pois a cavalo era muito mais digno e romântico, desfilava à frente das tropas, sua voz de comando, sua prosápia, seu porte marcial, condecorações ao peito.

E como a guerra não pudera ser evitada, os exércitos argentinos invadindo traiçoeiramente as fronteiras do Rio Grande, a parada do 7 de Setembro transformava-se no embarque da tropa para o Sul, no caminho do dever, da glória e da morte.

O povo todo da cidade reunido nas ruas, as mulheres em pranto abraçando os soldados, as moças atirando pétalas de rosas no caminho.

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