quarta-feira, agosto 27, 2014

Dr. Tição...  - gracejou Coroca...
TOCAIA GRANDE
( Jorge Amado)

Episódio Nº 38
















Formou-se a roda em torno dela, as mãos marcando a cadência acelerada.

Bastião da Rosa, branco de olhos azuis, trouxe Bernarda para o centro da roda, formavam um par de arromba. Clorinda, apaziguada, olhou num convite para o sarará a seu lado, Manuel Bernardes voltou a sorrir, o peito aliviado da dor da companheira e da tenção de matar. Retirou a repetição do ombro.

 Dos sacos cheios de cacau subia um odor activo que se misturava ao bodum dos corpos suados, aromas familiares, aromas de primeira, um e outro.

— Doutor Tição... -  gracejou Coroca pendurando o filo num prego na porta de entrada.

Juntos deixaram a festa, voltaram para a cama de campanha.
Coroca não era perfumada e galante Baronesa, não possuía o corpo esbelto e jovem de Rufina mas, para atender uma emergência, valia tanto ou mais que outra qualquer: tinha a sabedoria de Madama, o fogo da mulata. Xoxota de chupeta.

3

Universo húmido e tórrido, a lama e a poeira dividiam o calendário do cacau. As chuvas, tão imprescindíveis quanto o sol, duravam a metade do ano, pesadas, intermináveis, crescendo facilmente em tempestades tropicais.

 Se ultrapassavam, porém, o tempo útil, podiam tornar-se fatídicas, fazendo apodrecer nas árvores os birros necessitados de luz e calor.

Coronéis e capatazes, jagunços e alugados viviam de olhos voltados para os céus em busca dos sinais anunciadores ora da chuva, ora do bom tempo: para que na força das águas os cacaueiros rebentassem em flores e no brilho do sol os brotos crescessem vigorosos e se acendessem em ouro. Para que se mantivesse alta a legenda daquela região privilegiada acerca da qual corriam tantas notícias e se contavam histórias de pasmar em todo o país.

Em busca de trabalho e de fortuna descia do norte, subia do
sul para o novo eldorado uma vária e sôfrega humanidade: trabalhadores, criminosos, aventureiros, mulheres da vida, advogados, missionários dispostos a converter gentios.

Chegavam também do outro lado do mar: árabes e judeus, italianos, suíços e alemães, não esquecendo os ingleses da Estrada de Ferro Ilhéus – Conquista - The State of Bahia South Western Railway Company - e do consulado com a bandeira da Grã-Bretanha, a fleuma inalterável e a sólida bebedeira.

O cônsul inglês deixara a família em Londres, contratara em Ilhéus uma índia silenciosa para todo o serviço da casa. Na cama, com sua nudez pequena, ela parecia uma deusa da floresta e talvez o fosse.

 O Senhor Cônsul fez-lhe um filho lindo, um caboclo de olhos azuis, um gringo cor de chocolate.

Os povos daquela lavoura recente, rica e cruenta, eram de pouca religião se bem gastassem a qualquer propósito o nome de Deus, pronunciando-o em vão, ao sabor das tocaias e dos caxixes.

De promessa fácil, todos os anos os coronéis renovavam acertos, assumiam compromissos com a corte celeste, em razão das chuvas, em razão do sol, buscando comprar a boa vontade dos santos e o perdão para os crimes — se é que se pode chamar de crimes os acidentes da conquista.

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