quarta-feira, agosto 06, 2014

Os olhos miúdos do Capitão brilhavam
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)


Episódio Nº 20










Sem contar com as futuras roças, a serem plantadas nas terras que acabara de desmatar.

Dava gosto contemplar as mudas de cacaueiros crescendo vigorosas à sombra húmida das árvores. Os olhos miúdos do Capitão brilhavam, num açodamento de amoroso, ao comprovar o esmero com que tinham sido dispostas, as distâncias entre cada uma delas na medida certa, as covas abertas no rigor do preceito, quase não tivera perdas.

 Não cabia discussão: lavra nenhuma no mundo se compara à do cacau, nenhuma compensa tanto e tão rapidamente. Plantar cacau é o mesmo que semear ouro em pó para colher barrotes.

 Verdade comprovada, o sorriso abria os lábios, apertava os olhos do patrão da Boa Vista. Era ter paciência e esperar.

Os alqueires que o coronel Boaventura Andrade mandara registar em nome do antigo capanga situavam-se perto de Tocaia Grande, ninguém soube se de propósito, se por coincidência.

Imprudentes especularam sobre o nome dado por Natário à propriedade, insinuando que ele teria se inspirado na visão do vale junto ao rio, quando, na distante noite de tempestade, a parabelum na mão, demorou à espreita: boa vista apesar da escuridão.

 A língua do povo é comprida e afiada, mais comprida ainda a inventiva.

Não adiantava o repetido aviso da cautelosa maioria: - com diz-ques e falatórios não se ganha nem um tostão furado e pode-se ganhar um tiro fácil no ricochete das balas vadias atrás dos pés de pau.

Para que revolver águas passadas se o capanga já não existia, quem por ali transitava era Capitão e fazendeiro?

Tocaia Grande ficava a meio caminho entre a Fazenda da Atalaia e a da Boa Vista, a distância a cobrir entre os dois destinos não ia além de légua e meia, duas léguas se muito; em boa montaria, um pulo. Indo ou voltando, o Capitão cruzava sempre pelo atalho, encurtando o caminho.

Pôde assim acompanhar, atento e participante quando necessário, a transformação que foi acontecendo.

Tendo sabido dos planos do coronel Robustiano de Araújo, Natário o aconselhou a construir o depósito em Tocaia Grande.

Fazendão sem tamanho, na qual além de plantar cacau o Coronel criava gado, a Santa Mariana ficava nas nascentes do rio das Cobras, nos limites da caatinga, muito distante dos trilhos da Estrada de Ferro.

Motivo por que o Coronel decidira levantar em sítio apropriado um armazém para nele estocar cacau seco e ali entregá-lo aos exportadores; eles que se vexassem com o transporte para Ilhéus.

 O fazendeiro se agradou do posto, seguiu o alvitre e tendo se dado bem, já estava anunciando a construção de um curral onde o gado repousasse na caminhada para os matadouros de Ilhéus e de Itabuna.

 Conselho valioso, o Coronel agradecido mandou entregar uma novilha ao Capitão.

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