quinta-feira, outubro 23, 2014

Em Dezembro se forma em professora
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 79



















Nas artimanhas e nos embustes da vida, entre Aruza, rebento de pais ricos, com seu uniforme azul e branco de estudante no colégio das ursulinas em Ilhéus, e Jussara, força da natureza toda em negro vestida, da cabeça aos pés, em luto rigoroso, dona de sortida loja no centro de Itabuna, eis que Zezinha do Butiá, rabicho de canto de rua, mulher perdida, rebotalho, foi de valia e confiança.

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De passagem por Ilhéus onde viera completar o estoque, efectuar pagamentos e ver o mar, Fadul Abdala foi convidado a jantar, em companhia de Álvaro Faria, na casa de Jamil Skaf, patrício montado na vida, proprietário de A Preferida, próspero negócio de móveis e colchões.

Fadul surpreendeu-se com o convite, feito no Bar Chic, nas imediações do porto, pois conhecendo Jamil há vários anos não mantinha com ele relações de intimidade. Viam-se uma vez na vida outra na morte em bares, no cabaré, em pensões de raparigas, trocavam apertos de mão, amabilidades: nada além disso.

 No bar, bebericando o aperitivo, fazendo hora para o almoço no Tacho de Bibi, no Pontal, moqueca de pitu regada a cerveja, Fadul gozava momentos de profunda elevação espiritual escutando Álvaro Faria, homem de muito saber e pouco trabalhar.

Igual a Álvaro Faria para uma tertúlia, uma boa prosa, unicamente Fuad Karan, um em Ilhéus, outro em Itabuna, cada qual mais ilustrado e espirituoso, dois luminares.

Come-se e bebe-se muito bem em casa de Jamil -  sussurrou- lhe Álvaro - e a filha é deslumbrante. Baixinho e bigodudo, agitado, falando pelos cotovelos, o patrício, tendo feito o convite, acrescentou que após o jantar poderiam ir à pensão de Tilde, recém - inaugurada no Unhão com luxo de francesas.

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Apesar dos convidados serem apenas eles dois, Álvaro e Fadul, o jantar teve aspecto de banquete, tal a variedade de pratos árabes e brasileiros e a categoria das sobremesas.

Fadul se fartou. Ao elogiar a fina qualidade do quibe e o sublime sabor do araife, pastel de amêndoa com calda de mel, seu doce predileto, soube que fora a filha única dos donos da casa, a professoranda Aruza, quem preparara o jantar: cozinheira emérita, de forno e fogão.

Ajudada, é claro, por inumerável batalhão de criadas. Durante o jantar, Aruza manteve-se acanhada, sem assunto, respondendo com monossílabos se lhe dirigiam a palavra.

Nem sequer sorria quando os demais riam às bandeiras despregadas com as facécias e os ditos de Álvaro Faria.

Antes de se sentarem à mesa, Fadul ouvira da boca de Jamil o elogio das prendas da filha da qual muito se orgulhava:

Em Dezembro se forma em professora, toca piano, recita poesia de cabeça. Muito instruída, não poupei dinheiro.

Silenciou como se calculasse quanto gastara com a educação da herdeira mas logo prosseguiu enumerando virtudes:

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