quarta-feira, março 08, 2017

Mar me quer
(Mia Couto)



Episódio Nº 20








Fui erguendo os olhos, avistando primeiro as madeiras mastigadas, restos carcomidos de pássaros, penas de cinzas, tudo jazendo em paz de deserto. A rede metálica mantinha-se intacta. Mas, à mistura daquela cinzentação, surgiu-me a aparição de uma ave vivente, toda branca, rendilhando repentinos voos.

Como sobrara aquela gaivota de tão total fogareiro?

Dona Luarmina, lentamente, se retirou. Fiquei só com os restos da capoeira e uma lembrança de vazio, esvaziada de mim e de tudo. Minhas mãos tremiam quando abri a porta da gaiola.



                                 Sétimo Capítulo



Da primeira vez, eu senti o braço molhado. Estava deitado, em meu leito, esperando o sono. De repente, um frio na pele me alertou: por ali se derramava líquido escapado de alguma fresta. Foi então que a visão me horrorizou: a água, afinal, vinha de todos os lados, do chão, do teto, a água corria a me buscar, sua língua azul me vinha arrancar deste mundo. Não tardaria que perdesse respiração, cercado por dentro e por fora.

Levantei-me e conforme escapava pelo quarto, o chão se molhava. Alucinação, com certeza. Mas ficava no alaguado do tapete a prova de veracidade.

Foi apenas a primeira vez. Essa visão de afogamento passou a suceder sempre que adormecia. Às vezes me envolvia o mar, outras me parecia afogar no meu próprio sangue. Mar e sangue, sangue e mar.

De onde vinham esses sinais? Passei em revista meus antigamentes, recordei meu velho me dizer no dia em que no barco, acidentei meu dedo:

- Chupa um pouco desse sangue.

Obedeci, como sempre fazia. Meu pai seguia meus gestos com atenção que ele nunca punha em mim.

- Diz lá agora: o sangue tem o sabor de quê?

Eu olhei o mar, sem dar outra resposta. Meu pai, afinal, me estava a dizer o quê? Que trazemos oceanos circulando dentro de nós?

Que há viagens que temos de fazer só no íntimo de nós? Ficarei sempre sem saber. Lições que o velho Agualberto me deu sempre foram assim: esquiva e mal desenhadas.

O sangue e o mar, suas parecenças me ressurgiam agora em punição de alguma desobediência. Só compreendi então a complexa razão daqueles pesadelos. Quando se sentiu morrer, meu pai se dirigiu a mim e pediu:

- Venha comigo me mostrar uns certos lugares


Seus olhos já estavam todos brancos como as conchas lambidas por muito sol.


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