quinta-feira, março 16, 2017

Mar me quer
(Mia Couto)


Episódio Nº 22










Minha doença piorou: já não me levanto da cama. Mais grave: não posso dormir sequer. Mal palpebrejo, a dobra do lençol se converte em água e, no instante seguinte, tudo se avermelha e eu desaguo em rios de sangue. Se durmo me afogo, se vigio me foge o juízo. Me faz falta o sonho, tudo quanto queria era sonhar.

Ouço ruído na porta. Devem ser ladrões, mas já isso não me importa.

- Venho-lhe visitar, Zeca.

- Verdade, sorrio incrédulo.

- Você sempre me visitou. Hoje sou eu a vir ter consigo.

Luarmina desembrulha um lençol novo. Ordena que a ajude a mudar a roupa da cama.

- Essas estão ensopadas. Como é possível transpirar-se tanto?

Eu queria dizer-lhe que aquilo não era suor, era o próprio mar me castigando. Mas não entrei em atalho, fui direito ao assunto:

 - Ainda bem que veio, Luarmina.É que estou quase para morrer.

- Não fale disparate, Zeca. Você ainda me há-de atirar umas pazadas.

Pedi à vizinha o mesmo que o velho Celestiniano me pedira em seu último momento: que ela ficasse junto ao meu leito só para eu me distrair nos olhos dela.

- Lhe peço, vizinhinha: quero desfalecer a olhar os seus olhos

Luarmina sorriu, indulgente, como se eu me tivesse acriançado de vez.

- Se você continua com essa conversa, vou-me embora daqui.

- Então me faça um favor, Dona. Me conte uma história.

- Uma história, eu?

- Sim, eu já lhe contei tantas, vizinha.

- Mas eu não tive história, eu tive pouca existência.

- Como é possível?

- Minha vida é muito pobre. Eu vivi tão poucochinho que já tenho pouco para morrer.

- Dona Luarmina, faça um esforço. É uma vergonha para um homem, mas eu queria me embalasse até chegar a um sonho.

É que preciso sonhar, preciso tanto de sonhar!

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