quarta-feira, outubro 29, 2008


De:

ANTÓNIO LOBO ANTUNES


Sátira aos Homens Quando Estão Com Gripe



Pachos na testa, terço na mão,

Uma botija, chá de limão,

Zaragatoas, vinho com mel.

Três aspirinas, creme na pele

Grito de medo, chamo a mulher.

Ai Lurdes, que vou morrer.

Mede-me a febre, olha-me a goela.

Cala os miúdos, fecha a janela,

Não quero canja, nem salada

Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.

Se tu sonhasses como eu me sinto,

Já vejo a morte nunca te minto,

Já vejo o inferno, chamas, diabos,

Anjos estranhos, cornos e rabos.

Vejo demónios nas suas danças

Tigres sem listras, bodes sem tranças,

Choros de coruja, risos de grilo,

Ai Lurdes, Lurdes fica comigo

Não é o pingo de uma torneira,

Põe-me a santinha à cabeceira

Compõe-me a colcha

Fala ao prior,

Pousa o Jesus no cobertor.

Chama o doutor, passa a chamada,

Ai Lurdes, Lurdes não dás por nada.

Faz-me tisana e pão-de-ló,

Não te levantes que fico só

Aqui sozinho a apodrecer,

Ai Lurdes, Lurdes, que vou morrer.

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