sexta-feira, janeiro 23, 2009


Tieta do Agreste
EPISÓDIO Nº 28


PRIMEIRO FRAGMENTO DE NARRATIVA, NA QUAL – DURANTE A LONGA VIAGEM DE ÔNIBUS – LEITO DA CAPITAL DE SÃO PAULO À DA BAÍA – TIETA RECORDA E CONTA À BELA LEONORA CANTARELLI EPISÓDIOS DA SUA VIDA. AQUI VAI A AMOSTRA: OUTROS LANCES, MAIS SUBSTANCIAIS, VIRÃO DEPOIS.



- Penso que as cabras não sentiam o sol, não esse calorzinho daqui, o calor daqui, o calorão de lá, o sol em brasa nas pedras. Nem elas nem eu.

Nas pedras, as cabras imóveis sob o solo; pedras, estátuas, elas também. De súbito, saltam, disparam a correr, uma, logo outra, todas. Vão descobrir tufos de capim nos mais altos oiteiros.

- Eu ia atrás, pastoreando. As cabras me conheciam, eu botava nome, apelido em cada uma. Chamava, elas atendiam. Cuidava delas, quando uma se feria nos espinhos, eu tratava, punha mastruz nas feridas.

- Que idade você tinha, Mãezinha?

- Acho que dez anos, quando comecei. Dez ou onze, tinha terminado o grupo escolar.

Preferia o sol cozinhando pedras, a terra árida, os cactos, as serpentes, os lagartos, o coaxar dos sapos na água do riacho, os calvos cabeços dos morros, as touceiras de capim, as cabras – enquanto a primogénita cuidava da casa.

- Perpétua nasceu velha, nem sei como conseguiu casar. Mocinha, se meteu na sacristia da Igreja com as carolas, a mais beata de todas. Para ela eu era o diabo em pessoa… – ri: - Tinha razão, eu não era gente. Desde pequena vi o bode Inácio montando cabras.

Inteiro, sereno, majestoso, o bode Inácio, pai do rebanho, aparece, passo medido, cavanhaque longo, inhaca forte. De bagos assim de grandes, quase a tocar a terra, senhor da chibarrada, patriarca dos caprinos.

Lento e inexorável, vem vindo para o lado da cabrita irrequieta no primeiro cio, os quartos agitados à aproximação de Inácio, as patas traseiras escoiceando o ar, na idade de ser coberta e emprenhar. Caminha Inácio no rastro do aftim da fêmea, o saco balançando. Emite o berro, vibrante e límpido, anúncio, ameaça, declaração de amor.

- Primeiro eu via, não ligava, era nova demais. Mas depois, quando comecei a ter as regras, o berro de Inácio entrava por mim adentro. Passei a espiar, me estendia no chão para ver melhor.

A cabrita dispara, Inácio não se dá ao trabalho de correr, pára e espera; a menina aprende. Duas ou três escapadas mais e ele monta a indócil quando assim decide, dono, pai do rebanho.

Deitada no chão, a moleca aprecia, não perde detalhe. De bruços contra a terra safara, sente um calor subindo pelas pernas até aos gorgomilos, vontade, moleza. Inácio era um bodastro, um bodastro e tanto, a chiba se debateu quando ele a fez cabra e a emprenhou. Um berro final de dor e acolhimento. Ecoando no ventre da menina. Conjugados cabra e bode na altura sobre as pedras, petrificados, rocha única, penhasco, Capricórnio.

- Assim eu aprendi. Vi mais que isso, nos meus começos. Mais.

Não só assiste ao bode Inácio montar as cabras. Acontece-lhe ver, escondida nos oiteiros, moleques se pondo nelas. Osnar e seu bando de perdidos. Homens feitos também. O próprio pai, imaginando-a ausente.

- Em casa um deus-nos-acuda, austero, moralista por demais, mandando todo o mundo para a cama nem bem a gente se levantava da mesa do jantar. Em namoro era proibido se falar.

Namorado de filha minha se chama palmatória e taça de tanger burro; bordão de marmelo é o nome completo, roncava Zé Esteves. Punha-se nas cabras quando julgava o pasto vazio. Existiam cabras viciadas.

- Eu era uma cabrita igual a elas. A primeira vez não teve diferença.

- Com que idade, Mãezinha, a primeira vez?

- Sei lá. Treze, catorze, botei sangue cedo.

- Depois?

- Fui cabra viciada, não havia homem que me desse abasto.

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