quarta-feira, julho 08, 2009


TIETA DO AGRESTE
EPISÓDIO Nº 177





Vou trocar de roupa, tomar de banho e dormir, estou exausta.

Portador do recado de Astério, Pirica viera encontrá-lo à noite nos cômoros, em desatada festa com Ricardo. Sorte o Comandante ter gritado para localizá-la. Pirica comenta a morte do Velho, após dar a notícia:

- Indagorinha trouxe e levei ele no barco. Ia tão contente que até me deu um agrado.

Passara o resto da noite na sentinela, recebendo pêsames, repetindo as mesmas palavras, ouvindo histórias acerca de Zé Esteves, algumas engraçadas, outras bravias, do tempo de prosperidade. Depois, a manhã do enterro, metido naquele vestido apertado, feito para o clima de São Paulo, a caminhada para o cemitério, a encomendação do corpo, o desfile do povo em condolências, a volta melancólica. Tieta quer dormir, não pensar em nada, nem sequer em Ricardo, de repente sentindo-se estranha a Agreste. Rompera-se uma das amarras a prendê-la à terra natal e pela primeira vez desde que chegara teve realmente vontade de regressar a São Paulo.

Estava tirando a roupa para tomar uma chuveirada, cair na cama e dormir sem hora de acordar, quando, falando da sala de jantar, Perpétua anuncia-lhe a visita de Jarde e Josafá: queriam vê-la com urgência, motivo sério. Tieta enfia um robe-de-chambre e vem atendê-los, levando-os para a varanda. Perpétua fica por perto, rondando.

Jarde roda o chapéu na mão, baixa os olhos deslumbrado com a visão do busto da paulista, mal coberto pelas rendas do desabiê. Josafá toma a palavra:

- Desculpe, dona Antonieta, a gente vir incomodar numa hora tão ruim mas o assunto é urgente e por isso nós não tivemos outro jeito, o pai e eu.

- É sobre a compra da posse?

- E do rebanho, sim senhora. Seu Zé Esteves disse que tinha falado com a senhora e que a senhora ia pagar o restante.

Mas agora ele morreu.

- Por isso mesmo a gente está aqui. É que ele quando voltou de Mangue Seco, depois de pedir um abatimento, que nós fizemos porque estávamos com pressa de fechar o negócio, deu logo uma parte do pagamento, de garantia, mais de metade – enfia a mão no bolso da calça, puxa um maço de dinheiro amarrado com uma fita cor-de-rosa desbotada, deposita-o numa cadeira ao lado de Tieta – Está aqui o dinheiro que seu Zé Esteves deixou connosco, em confiança. Não quis papel nenhum…

Maluco! – pensa Perpétua ao ouvir tal absurdo. Aproximara-se, apenas percebera o motivo da conversa: o velho comprando terras e cabras sem nada lhe dizer, na surdina, para isso economizara durante todos aqueles anos.

Jarde se distrai, os olhos fogem para o decote do robe, Tieta se compõe, tem de tomar cuidado devido às manchas escuras nos seios, nas coxas, na barriga; em todo o corpo a marca e o gosto dos lábios de Ricardo. Ali, naquela hora, recém chegada do enterro, flagrando Jarde a lhe brechar o decote, conversando negócios, sente um frio de prazer a percorre-la. Ao cansaço mescla-se o desejo, uma doce lassitude. Josafá prossegue.

A gente veio lhe trazer o dinheiro. Pena seu Zé Esteves ter morrido, ele queria a todo o custo a roça e as cabras, ficou doido por seu Mé.

Ante o olhar de Tieta, de incompreensão, explica:

- Seu Mé é o pai do rebanho, um bodastro de dar gosto.

Levanta-se, caboclo alto e disposto; Jarde o imita, ainda encabulado. Josafá lastima, antes de estender a mão na despedida:

- Para a gente, a morte de seu Zé Esteves também foi um golpe, a venda já estava feita, agora se desfaz. Vamos oferecer a seu Osnar, cuja propriedade é vizinha da nossa, só que a dele é um
colosso, só perde para a do coronel Artur.

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