sábado, abril 02, 2011

TEREZA

BATISTA
CANSADA
DE
GUERRA

Episódio Nº 71

Dóris chorou pelos cantos, mas nem quis ouvir falar em ir-se embora, como propôs dona Brígida na revolta do primeiro impulso. “Coisa à toa, um tapinha sem importância, tive culpa mesmo, demorei de mais”.
Nessas e noutras finaram-se as fidalguias e a razão de dona Brígida. De uma ou de outra maneira, assim ou assado, Dóris soube manter desperto o interesse do capitão, talvez porque o fogo da tísica a consumisse, não havendo puta que se lhe comparasse – e o capitão era competente na matéria.
Dois dias antes do parto e da morte, ele ainda a cobriu à moda dos bichos, devido à barriga, e Dóris se deu com a mesma ânsia da primeira vez na alcova de solteira da casa da Praça da Matriz quando fora mudar o vestido de noiva. Profundo e duradouro amor de esposos, segundo a comprovada tese do doutor Juiz, um crânio.
A tuberculose se declarou galopante na última semana de gravidez. O pigarro da época de noivado crescera em tosse crónica após o casamento, aumentaram as covas das faces e a curva dos ombros, mas só vomitou sangue às vésperas do parto.
Trazido de caminhão doutor David reportou-se à consulta anterior:
“Bem que eu avisei. Deviam ter adiado o casamento, ter feito os exames. Agora, é tarde, nem por milagre.”. Ao ver a filha esvaída, o cuspo de sangue, outras cordas romperam-se na mente de dona Brígida. Esqueceu agravos, más palavras, desamor, apagou as imagens lúbricas e humilhantes da noiva e da esposa, reencontrou intacta na memória a menina do colégio de freiras, a pura Dóris de olhos baixos e terço em punho, distante da maldade do mundo no caminho do noviciado.
Com a filha restaurada em santidade, partiu para o inferno restaurar seu crime. De lucidez restou-lhe o suficiente para cuidar da neta. Nascimento e morte sucederam-se na mesma noite de chuva, quase à mesma hora. A menina forte e gorda, veio ao mundo pelas mãos da parteira Noquinha, Dóris faltou mas do doutor David, atrasado para o parto, a tempo justo para o atestado de óbito.
Que teria sentido o capitão? Soube-se na cidade que, tendo depositado o doutor em casa, dirigiu o caminhão para a pensão de Gabi, onde quatro retardatários bebericavam conhaque em companhia de Valdelice, moçoila de acanhado ofício. De trato feito com um dos quatro para a noite inteira, a jovem aguardava com sono e paciência o fim da cachaça dos fregueses envolvidos numa discussão de futebol. No balcão, Arruda, garçon e xodó de Gabi, tirado a valente ressonava. O capitão entrou para adentro, não disse palavra, recolheu a garrafa de conhaque, esvaziou-a pelo gargalo. Arruda acordou para brigar, ao reconhecer Justiniano, recolheu a valentia. Na falta de melhor, o capitão contentou-se com Valdelice.
Tendo a rapariga, por força de compromisso anterior, resistido ao convite “Vambora”, aplicou-lhe dois tabefes redondos e puxando pelos cabelos esgrouvinhados, com ela trancou-se num quarto. Saiu manhã alta. No centro da cidade a notícia da morte de Dóris, com detalhes de arromba, reunira desde as matinas a assembleia das comadres no átrio da igreja.
Viram o capitão Justo atravessar a rua, precedente das bandas da Cuia Dágua, onde as rameiras exerciam. Pesado, espesso, lerdo, mudo, sinistro, um bicho. A filha morta e enterrada, dona Brígida imaginou-se herdeira; numa suprema audácia ergueu a voz e reclamou inventário. O capitão riu-lhe na cara, foi designado inventariante pelo meritíssimo juiz e, por muito favor, consentiu-lhe manter o quarto dos fundos e os cuidados da criança
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