domingo, agosto 12, 2012


HOJE É DOMINGO
(Na minha cidade Santarém)

Acabo de me sentar ao computador ainda com as imagens gravadas nos meus olhos dos corredores da maratona, quenianos, etíopes, ugandeses, africanos na generalidade, aos quais me apetece chamar de “máquinas de correr”.

Lembrei-me, por isso, do que em tempos aprendi num documentário da especialidade, que esta capacidade de correr a estes ritmos e por períodos de tempo que desafiam a exaustão, terá sido importante para a sobrevivência dos nossos antepassados em África.

Naquelas savanas infindáveis, os nossos “avós” africanos eram capazes de correr atrás de gnus, palancas, zebras e vencê-los pelo cansaço em corridas que terminavam pelo completo esgotamento dos animais.

O segredo não era, como hoje se faz, os “treinos especializados em altitude” mas, tão sòmente, pelo mecanismo maravilhoso do organismo humano de arrefecimento do seu “motor” propulsor que os seus competidores de quatro patas não possuíam.

Nós suamos e o líquido do suor ao evaporar-se à superfície da pele provoca o arrefecimento da temperatura do corpo, uma maravilhosa tecnologia sem a qual os animais com o seu único dispositivo de boca aberta e língua de fora, não podiam competir… Depois, foram pequenos “ajustamentos” e treino, muito treino, não ao longo de uma vida mas de muitas e muitas gerações através das savanas africanas.

Pronto, está resumidamente explicado… entreguem a um representante destes povos as respectivas medalhas olímpicas.

Ah, mas nós tivemos o Carlos Lopes…pois, mas eles têm centenas que correm e ganham maratonas por esse mundo fora e uma andorinha não faz a primavera.


A POUCO RECOMENDÁVEL IDADE MÉDIA

Prometido é devido. Vamos acabar a história verídica da visita do nosso primeiro Rei Afonso Henriques, apropriadamente denominado o Conquistador, ao seu fiel amigo e apoiante, conde D. Gonçalo de Sousa.

“… A grande divisão da sala em que o rei conversava com a condessa tinha, junto da mesa comprida, um tapete que consistia na pele de um urso decapitado. Ao lado da lareira, na parede de pedra sem qualquer espécie de reboco, estava dependurada uma tapeçaria de desenhos rudimentares toda furada pelas traças.

Dois grandes cães dormitavam a um palmo das chamas que pareciam chamuscar-lhes os lombos que subiam e desciam aceleradamente ao compasso da respiração.

A mulher do conde, branca e loura como descendente que era dos Suevos que tinham estabelecido séculos atrás um efémero reino no noroeste peninsular e que haveriam de ser absorvidos pelos também germânicos Visigodos, usava umas tranças fininhas, que enrolava sobre as orelhas a imitar os actuais auscultadores que os jovens e os atletas usam para ouvirem música e descontraírem.

Colocava por vezes na cabeça um toucado cónico, outras um chapelinho circular. Quando estava sozinha no quarto gelado onde o frio entrava por entre as frinchas das portadas da janela sem vidraças, gostava de contemplar o seu corpo nu no pesado espelho de metal polido, já que os de vidro, oriundos de Veneza eram raros e muito caros.

Agora, ali na sala, sorria e baixava os olhos quando o rei lhe dirigia a palavra, ela no seu banco desconfortável, ele erguendo-se do coxim lustroso de sebo onde estivera sentado e aproximando-se da anfitriã.

Quando o conde regressou à sala, vindo da cozinha, deparou com o rei a fazer amor com a condessa, sua mulher, sobre a pele de urso, enquanto os galgos, meio acordados, arrebitavam as orelhas e olhavam a cena com a língua pendente, sem intervirem.

Escusado será dizer que D. Gonçalo não gostou da cena que viu mas, tratando-se do seu rei, não se atreveu a erguer a voz ou a mão.

O jantar decorreu como estava previsto mas com uma cordialidade ruidosa mas um tanto falsa enquanto uma aragem gelada atravessava a mesa e abanicava as chamas das velas.

Porém, como não podia deixar de ser, mal o rei seguiu caminho sem ter pedido outra hospedagem que não fosse a do jantar, a fúria do conde abateu-se sobre a mulher o que não admira por ser a parte mais fraca.

Rapou-lhe o cabelo e devolveu-a de manhãzinha cedo para casa dos pais montada numa mula sobre uma simples albarda de serapilheira e montada voltada para a garupa do animal.

O sinal de degradação não era a mula pois os cavalos, tal como os espelhos venezianos, eram raros e caros e era vulgar os nobres e guerreiros caçarem e combaterem no dorso das muares. O próprio Afonso Henriques cavalgava uma mula e séculos mais tarde, D. Nuno Álvares Pereira combateria em Aljubarrota sobre a sua mula preferida.

O verdadeiro motivo de humilhação para a condessa era o cabelo rapado, a albarda de estopa em vez de cabedal e, acima de tudo, ir montada ao contrário, voltada para a garupa, andando para trás como o diabo.
(Este texto é de autoria de Luís Almeida Martins e foi publicado na revista Visão)

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