terça-feira, outubro 16, 2012


ENTREVISTA FICCIONADA
 COM JESUS Nº 80 SOBRE O TEMA:
 “VIOLÊNCIA OU NÃO VIOLÊNCIA”





RAQUEL -  Regressamos a Jerusalém quando faltam poucos dias para a Semana Santa, e continuamos nossas entrevistas exclusivas com Jesus Cristo fazendo-lhe hoje uma pergunta actualíssima: aprova ou condena a violência?

JESUS  -  Por que você diz que é de tanta actualidade?

RAQUEL  - Venha, aproxime-se desta banca de jornal. Lerei as manchetes: 47 mortos em dois atentados. Novas ameaças dos Estados Unidos no Oriente Médio. Continuam as guerras tribais na África Central. Nosso mundo é muito violento.

JESUS -  E meu país também. Nestes dias, vi soldados por todas as partes.

RAQUEL - Soldados israelitas ocupando territórios palestinos.

JESUS - Eu também vivi em um mundo de muita violência, Raquel.

RAQUEL -  No entanto, nos filmes, seu mundo parece sereno, idílico, de flores e passarinhos.

JESUS -  Não, nada disso. Quando nasci, o meu país já estava ocupado militarmente pelos romanos.

RAQUEL -  O que isso significava?

JESUS - Humilhações, mortes. E os impostos. Nosso país pagava tributos altíssimos ao imperador de Roma. Saqueavam-nos.

RAQUEL -  Então o conceito de imperialismo lhe é familiar?

JESUS -  Muito familiar. Vi soldados romanos desde pequeno. Entravam nas aldeias, roubavam, violavam as mulheres. Desprezavam-nos. Achavam-se donos.

RAQUEL -  Lembra algum acontecimento especialmente sangrento?

JESUS - Era jovem quando em Séforis, a capital de Galileia, os romanos crucificaram centenas de rebeldes. Fui até lá, vi com meus próprios olhos. Haviam sempre manifestações contra os romanos.

RAQUEL  -  Guerrilha, violência armada?

JESUS -  Os romanos tinham espadas e escudos. Cavalos. Como enfrentá-los sem armas? Na Galileia, na minha terra, nasceu o movimento dos zelotes, um grupo armado.

RAQUEL  -  O primeiro foco de resistência?

JESUS -  Não, tinha antecedentes. Inspiravam-se nos Macabeus, que se levantaram contra o império grego cem anos antes. Minha mãe pôs o nome de Simão a um dos meus irmãos em memória de um grande chefe macabeu.

RAQUEL -  E o senhor, participava dessa resistência?

JESUS -  Todos participávamos, de uma forma ou de outra. Metidos na luta ou encobrindo os que lutavam. As mulheres levavam comida aos rebeldes que se escondiam nas covas de Arbel, me lembro.

RAQUEL -  E o senhor?

JESUS -  Quando era pequeno, eu passava mensagens. Avisávamos por onde andavam os soldados. Quando era jovem, os apoiei em vários momentos, sim.

RAQUEL -  Era um movimento nacionalista?

JESUS -  Era. Queríamos um país livre, que os romanos fossem embora.

RAQUEL -  Os zelotes eram um partido político?

JESUS - Estavam muito bem organizados. Faziam atentados. Muito valentes, mas muito fanáticos.

RAQUEL -  E o senhor admitiu este tipo de gente em seu grupo?

JESUS -  Eu anunciei o Reino de Deus na Galileia e os primeiros que se juntaram a nós foram meus conterrâneos do norte. Alguns eram zelotes ou tinham sido. Eu não ficava perguntando-lhes isso.

RAQUEL -  Voltemos ao ponto de partida. Aprova ou condena a violência?

JESUS -  Eu penso que há muitas formas de violência, Raquel. A ocupação de meu país pela força militar era violência. Nos impostos que os romanos recolhiam ia o suor de nossa gente. Isso também era violência.

RAQUEL -  Nma mensagem, uma ouvinte nos lembra que Oscar Romero, que foi bispo de São Salvador, um santo dos de verdade, distinguia entre a violência institucionalizada dos que têm o poder e a “violência de resposta” dos que resistem. O que o senhor opina sobre isso?

JESUS - Que está muito bem dito. Porque não se pode medir com a mesma vara a violência dos de cima e a resposta dos debaixo. No meu tempo, como usar a mesma medida com os romanos e com os zelotes?

RAQUEL -  O que o Presidente dos Estados Unidos dirá destas declarações, o que dirão na União Europeia? Abrirão um expediente contra Jesus Cristo acusando-o de terrorista internacional? De Jerusalém, Raquel Pérez, Emissoras Latinas.

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