domingo, fevereiro 17, 2013


HOJE É
DOMINGO

(Chuvoso, na minha cidade de Santarém)


Ver o comportamento dos jovens nas noites de 6ª fª constitui a forma mais chocante e violenta de me sentir velho, fora do tempo que passa, ou ainda numa terra estranha onde devo ter aterrado de pára-quedas no dia anterior e na qual não me reconheço.

Normalmente, a tendência das pessoas que chegam à fase da velhice, é o de recordarem os tempos de namoro da sua juventude como tendo sido os melhores deste mundo, e eu compreendo isso muito bem porque sou da idade deles e as pessoas da mesma geração, naturalmente, entendem-se melhor.

Mas do que, normalmente, eles não se dão contam é que esses elogios não têm a ver com os “tempos” mas antes com a juventude, a sua juventude. Ela é que era boa, tão boa que até as coisas más de quando fomos jovens, agora nos parecem esplêndidas.

Realmente, a juventude potencia a vida, os obstáculos não passam de desafios e as dores, sejam elas quais forem, esquecem-se e ultrapassam-se muito rapidamente porque, para isso, lá está a primavera da vida com as campainhas a tocarem por todo o lado chamando-nos ao dia seguinte que espera por nós…

Mas aquilo que nos foi feito pelos nossos pais e educadores na década de cinquenta, que coincidiu com a minha juventude, foi uma grande maldade só desculpável porque os meus avós, com eles, ainda fizeram pior.

A separação forçada a que os jovens de sexo diferente estavam sujeitos constituiu um atentado e uma violação não só aos direitos da minha juventude mas, ainda mais grave, à minha própria natureza humana e de todos os jovens da minha geração que em maior ou menor grau foram vítimas dessa autentica crueldade.

Quando estudava, interno, no Colégio Nuno Álvares, em Tomar, bem poderia desejar ver a caminho da Igreja para a missa de Domingo, nem que fosse ao longe, as minhas colegas do Feminino, também elas internas como nós num outro edifício, em outro local da cidade, mas em vão, porque não só as Missas eram a horas diferentes como os percursos também eram outros.

Contactos de proximidade só com as mulheres da vida que nos esperavam nas casas, ditas de “meninas”, algumas delas passajando roupa de vestir, quem sabe, as calças de algum filho que talvez tivesse a nossa idade ou até mesmo mais velho.

Essas insípidas experiências de sexo, feito com uma mulher que tinha idade para ser nossa mãe constituíam atentados efectuados por nós próprios à nossa sensibilidade de jovens e eram sempre de muito má recordação.

Eram relações muito desiguais: de um lado, a mulher profissional, experiente, madura, por vezes maternal, do outro, a inexperiência, a juventude ainda feita meninice com um pouco de vergonha à mistura… e para quê?

O que um jovem necessita para o seu desenvolvimento saudável é de se envolver num namoro com uma rapariga da sua simpatia e com ela sair, conviver e expressar-lhe os seus sentimentos na sequencia de um processo que, sabemos hoje, começa a desenvolver-se aos oito anos de idade e envolve circuitos de neurónios, hormonais e muitos outros químicos à mistura.

Mas nessa altura eu não sabia nada, de resto, ninguém sabia nada, para além de que quase todas essas coisas eram pecado e a castidade é que era boa e fazia bem à saúde para além de agradar ao Nosso Senhor.

O meu colega José Augusto, que jogava futebol na equipa do Colégio e por isso era conhecido das meninas do Feminino que eram autorizadas a assistir aos jogos num sector das bancadas que lhes era reservado, devidamente acompanhadas e vigiadas, ficou interessado na irmã do Peixoto.

Talvez por cumplicidade com o irmão, que era seu amigo ou por um qualquer olhar mais penetrante da bancada para o campo ou do campo para a bancada, não se sabe… as setas do Cupido têm percursos caprichosos…

Fui então escolhido para redigir a carta do Pedido de Namoro o que aceitei com grande regozijo interior mas com aparente indiferença exterior sem que, no entanto, me tivesse feito demasiado caro não fosse ele desistir da solicitação.

Com todas aquelas barreiras e obstáculos que existiam entre rapazes e raparigas, eu nem de vista conhecia a irmã do Peixoto mas… desde quando um jovem romântico de dezasseis ou dezassete anos precisa de conhecer uma rapariga para lhe escrever uma carta de amor?

Não faço nenhuma ideia se o José Augusto veio a casar com a irmã do Peixoto, se tiveram muitos meninos e hoje um rancho de netos mas, se tal não aconteceu, não foi por causa da carta que depois de ter conseguido chegar ao destino com a cumplicidade de outras pessoas, foi lida pela destinatária que lhe respondeu na volta do mensageiro… “com os olhos ainda cheios de lágrimas de amor e paixão…”, conforme as suas próprias palavras.

Ora, não está certo, não é justo, não foram os lindos olhos dele, foi a minha carta, foram as minhas palavras que desencadearam nela os sentimentos de amor e paixão… mas foi ele que ficou com a namorada e isso foi uma espécie de batotice.

Fosse a vida o JOGO da GLÓRIA e a pedra que me representava como jogador voltaria para trás, à casa de o NAMORO, e recomeçar-se-ia novamente a lançar os dados.

Há… dizem vocês, mas se assim fosse serias o último a chegar à META e eu respondo: quero lá saber, muito mais importante do que chegar primeiro à META é ficar na casa do NAMORO porque a volúpia de uma paixão aos dezassete anos de idade dá muito mais prazer do que cortar a porcaria da META e não duvidem de mim porque sei do que falo… nunca vivi essa paixão e sempre suspirei por ela!

A vida é, em grande parte, um jogo. Apenas as regras são diferentes consoante os locais e a época em que se vive e os factos descritos não os teria vivido se não estivéssemos então nos anos bolorentos e pouco gloriosos de 1954 completamente dominados por uma mentalidade de sacristia e pouco saudável que então predominava na nossa sociedade.

A separação contra natura dos sexos acontece nas sociedades machistas e favorece escandalosamente os homens que a propósito dessa separação reservam para as mulheres as tarefas discretas do lar e da família ficando eles com os privilégios dos trabalhos mais nobres.

Pouco mais de quarenta anos depois e entre nós toda a situação se alterou. Rapazes e raparigas convivem hoje lado a lado desde os bancos da escola até ao último grau da vida académica, vestem as mesmas fardas e participam activamente nas mesmas guerras.

Hoje, são elas que preenchem e dominam em quase todos os lugares administrativos do aparelho do Estado. Na política, temos a Srª Merkel, a pessoa mais poderosa da Europa… E isto, porque elas são mais trabalhadoras e perseverantes na linha de uma tradição evolutiva da nossa espécie em que o segredo do sucesso talvez tenha estado mais nelas do que em nós. As sociedades matriarcais prevaleceram ao longo de todo o paleolítico.

Com base em fontes documentais e arqueológicas a maternidade era a fonte de todas as sociedades humanas. Os pesquisadores arqueológicos da Idade do Gelo de há 40.000 anos, descobriram grande quantidade de estatuetas femininas, estatuetas de Vénus, e identificaram-nas como representações da Deusa-mãe.

Subalternizadas, relegadas para papéis secundários a partir do neolítico, têm vindo ultimamente a subir a pulso a sua importância em todos os sectores da sociedade, excepção feita à Igreja de Roma em que nenhum Papa teve ainda a coragem de lhes abrir as portas do sacerdócio.
  

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