quinta-feira, fevereiro 07, 2013

SERENATA

O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 16


 E continuava animado:

 - Também não! Esse amor era o verdadeiro, o único amor… A Felicidade… A satisfação da carne não dá felicidade a ninguém.

 - Bolas! – discutia Rigger, que não queria concordar com o amigo para não ter que duvidar do amor de Julie – Então a gente nasce para esse amor… É a finalidade da nossa vida?

 - Isso mesmo. O sentido da vida, a finalidade está no amor. Mas nesse amor de que eu falo: amor-sentimento.

José Lopes, árbitro de todas as questões, não discordava nem concordava. Meio termo… O amor devia ser um misto de coração e sexo. Não estava de acordo em dizer que o amor fosse a finalidade da vida…

 - E qual é então? – esganava-se Ricardo, defendendo o seu ponto de vista…

 - Sei lá!

 - Talvez a religião… Deus… - arriscava Jerónimo.

E Ticiano aborrecido com quem ouvisse uma asneira:

 - Religião o quê, rapaz. Então a sua finalidade, a finalidade do homem inteligente é a mesma que a de todos os imbecis?

 - Mas o tomismo… - encorajava-o o outro.

 - O tomismo é um rejuvenescimento muito voronofiano do catolicismo. Por fim os escritores tomistas e os padres cultos terminarão numa luta corpo a corpo com as beatas velhas.

Jerónimo recolhia-se sucumbido ao fundo da cadeira. Bebia o café querendo esconder a cara.

José Lopes vinha em defesa de Jerónimo.

 - Quem sabe? Pode ser…

 - As religiões são amontoados de fábulas, de mentiras…

 - Não é a verdade que dá a felicidade. O homem tem a obrigação de chegar à felicidade pelo caminho mais curto. E a religião poderá trazer a paz, a alegria…

Pedro Ticiano fazia frases:

 - A felicidade reside na própria infelicidade, na insatisfação.

Essa insatisfação, essa dúvida, o cepticismo é que devem ser a filosofia do homem de talento. Sofismar sempre. Negar quando afirmarem, afirmar quando negarem. O fim de não ter fins.

 - Tudo isso é muito velho, Ticiano. Hoje não pega mais… Hoje se quer coisa séria, obra útil.

- E essa seriedade é nova? Sócrates já quis ser sério. Sérios foram Aristóteles, São Tomás. Homens incríveis… A finalidade do artista é viver, apenas… Viver por viver, por obrigação, porque nasceu…

José Lopes cismava… cismava muito. Seria que Pedro Ticiano tinha razão? Procurava libertar-se da influência do outro. Murmurava:

 - Blagues!

No fundo, Jerónimo Soares, embevecido, contemplava Pedro Ticiano que parecia um demónio, muito agitado, os raros cabelos brancos a fugirem da prisão do chapéu, querendo voar, tendo veleidades de cabeleira de poeta.

Site Meter