quarta-feira, março 13, 2013


O PAÍS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 45


O anúncio escandalizara. Toda a cidade comentara-o. Senhores graves, sérios colarinhos (existe gente cujo prestígio provem de usar colarinho alto), indignados, vociferavam contra aquilo, que insultava todos os homens de génio do Brasil.

Os estudantes pretendiam promover uma manifestação de desagrado ao “Estado da Bahia”. Mas, como souberam que seriam recebidos à bala (Jerónimo, belicoso, imitou Floriano Peixoto) desistiram.

A esperança da pátria brasileira, os estudantes, só ataca pobres coitados que não podem reagir. O anúncio fez tanto sucesso que, no Rio de Janeiro, um crítico escreveu uma crónica sobre ele. Achou-o maravilhoso.

Diante da voz da metrópole, a Bahia encolheu-se, medrosa. Meteu o rabo entre as pernas e ficou só a resmungar. E tudo isso por causa de um anúncio de um quarto de página que o “Estado da Bahia” publicara.

Em letras grandes e pretas:

PRECISA-SE DE UM HOMEM DE GÉNIO PARA A ARTE BRASILEIRA


O rumor do anúncio chegou até ao sertão, por onde viajava o Gomes. Numa cidade, o Prefeito negou-se a dar publicações para o “Estado da Bahia”.

Que o jornal estava a fazer campanhas anti-patriotas. Esquecera-se que a Bahia, para não falar no resto do Brasil tinha homens geniais.

O Gomes suou para cavar publicações. Voltou para a capital irritado. Ticiano estava-lhe a arruinar o jornal. Isso assim não ia direito… Não ia…


 - Casaremos no próximo sábado – disse-lhe Paulo Rigger – Viajaremos logo à noite para Nova York…

Maria de Lourdes encostou-se-lhe no ombro a chorar.

 - Que é isso, Lourdinha? Não se sente feliz?

 - Sim, Paulo. Mas…

 - …mas…

 - … eu tenho uma coisa para lhe dizer.

 - Diga, querida.

 - Agora não. À noite. Tem muita gente aqui. À noite sairemos a passear. E eu lhe digo.

Ele passou numa impaciência louca aquele resto de tarde. O que seria de tão sério, que ela tinha de lhe contar? Sempre suspeitara que ela lhe guardasse um segredo. Aquela sua tristeza… E Paulo Rigger sentia-se invadir por uma grande angústia. Medo de perder a felicidade próxima. De se ver de novo na confusão, sem rumo.

Maria de Lourdes chorou toda a tarde. Ia-se decidir o seu destino. A sua felicidade ou a sua infelicidade. E morava nela um pressentimento de que ele não lhe perdoaria.

A noite estava mais linda do que nunca. Uma grande noite para namorados. E, antes de sair eles se beijaram demoradamente na escada. Tinham a sensação de se beijarem pela última vez.

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