segunda-feira, abril 01, 2013


Não confundir com um "anjinho" negro ...
O PAÌS
DO
CARNAVAL

Episódio Nº 61


Jerónimo, nesses dias, tratava mal Conceição. Às vezes não ia a sua casa. Parecia-lhe estar a ser seguido por Pedro Ticiano.

E naquela noite, enroscado no funda da cama, influenciado pelas blagues de Ticiano, ele lançava olhares de tédio para tudo. Na cabeceira do leito um Santo António carregava um “Deus - Menino” nos braços fortes.

 - Conceição!

 - O que é Jerónimo?

 - Tire aquele Santo dali.

 - Por que, meu Deus?

 - Tire, já disse!

Ela obedeceu, cara de choro, beijando a figura num pedido de perdão. A lâmpada eléctrica ria uma gargalhada de luz no quarto.

 - Apague essa luz, Conceição!

Ela fez a treva.

 - Até entre quatro paredes o amor é imbecil…

A perna nua de Conceição sobre a sua perna. Os lábios carnudos dela sobre os seus lábios… O pensamento apagou-se a pouco e pouco. Perna sobre perna. Lábio sobre lábio. Passou a esponja da carne sobre o cérebro. Um beijo longo, cantante, que chegou a ser ouvido fora das quatro paredes do quarto…



A imagem de Maria de Lourdes, que dormia no seu cérebro, despertou com a notícia que Helena lhe dera. E ele ficou meditando sobre o destino das coisas.

Aquele professorzinho público que levava a vida a pregar moral e a ensinar o respeito à sociedade, tivera a coragem de romper com o convencionalismo. Ele, Paulo Rigger, blagueur, paradoxal, que ironizava tudo que cheirasse a convencional, fracassara ante a sociedade.

 - Mas você tem certeza de que Lourdinha vai casar?

 - Se tenho… Com o professor da cidade onde Dª Pombinha ensina. Ele até tem um nome complicado. Se não me engano chama-se Sebastião Hipólito, o seu rival.

 - Meu rival… Meu rival…

Descansou a cabeça sobre as mãos. Helena esperava-o no melhor vestido.

 - Já está na hora do cinema, Paulo!

 - Vá você. Eu fico-lhe esperando.

 - Só se Georgina quiser ir comigo.

Georgina queria. Enfiou a roupa às pressas e saíram, muito elegantes, a espalhar sorrisos pelos homens espalhados pelas calçadas.

Rigger passava os dedos por entre os cabelos, num gesto muito seu. Quisera não pensar. Ergueu a cabeça de sobre as mãos e levantou-se. Caminhou até à janela. Tentou distrair-se com o movimento da rua.

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