quarta-feira, dezembro 25, 2013


Um Bom Dia de Natal para Todos





O Frio de um Dia de Inverno

O frio aproxima uma pessoa de si própria. Saímos à rua e dentro do casaco, para nos protegermos do frio ofensivo do exterior, apertamo-nos como se, afinal, muito dentro de casaco não estivesse um, mas dois.

Não um sujeito, mas dois sujeitos. E por isso mesmo sair à rua num dia de inverno é finalmente dar um passo em direcção a uma outra parte do nosso corpo.

Um homem que na rua aperta o casaco e assim se aperta a si próprio faz, em caminhada livre e a céu aberto, uma rápida auto - sessão de análise psicológica e psicanalítica e física e etc. e tudo.

Frio e sol, perfazem então uma combinação sensata e perfeita.

Protege-te e comemora, eis o que nos diz, cada um a seu tempo, o sol e o frio.

No calor o nosso corpo afasta-se de nós, afasta-se do centro. Está para ali à minha frente ou ao meu lado.

No frio, pelo contrário, o corpo torna-se aquilo que eu quero proteger e aquilo que me protege. Por isso é que nos apertamos muito no inverno, no exterior.

Temos de fazer duas acções opostas ao mesmo tempo. Proteger e ser protegido. No inverno, o corpo ocupa menos espaço. De facto, é impossível exigir reflexão a um povo que viva debaixo do sol e do calor permanentes.

Acima de trinta graus de temperatura, filosofar é perder a vida e o exterior. Abaixo de oito graus, não pensar é não ter cabeça.

É assim mesmo, como se fosse uma fórmula meio química meio existencial: o homem só pensa em determinados assuntos e com certa profundidade quando avança pela cidade com temperaturas abaixo de oito, sete, seis graus.

Cada cidadão, enrolado no seu casaco, caminha com o rosto de quem reflecte longamente sobre o essencial.

Em Lisboa, em Dezembro, pensa-se mais – isso é evidente.



Belíssima Crónica de
Gonçalo M. Tavares

(Revista a Visão)

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