segunda-feira, fevereiro 17, 2014

Ananias arrombou a porta da alcova com um pontapé...
OS VELHOS

MARINHEIROS


Episódio Nº 7




Primeiro: mesmo as melhores e mais puras intenções podem ser mal interpretadas.

Segundo: não se deve confiar nos horários, por mais rígidos, nem sequer nos horários militares.

As intenções referem-se ao estudante, os horários ao brioso oficial da Polícia Militar. A Ruth referia-se a solidão das tardes calorentas, o langor do tempo vazio, a necessidade de consolo moral.

 Era uma beleza de sumarento amadurecer, olhos de longos cílios melancólicos, aflito corpo ao sol da praia, em queixumes: de que adiantava ter marido se não tinha companhia nas tardes paradas de Periperi?

 Almoçava às dez da manhã o tenente-coronel, saía correndo para pegar o trem, era rígido o horário em sua corporação. Só quase às sete da noite chegava de volta, metia-se num pijama, jantava, sentava-se à porta, numa espreguiçadeira, a cochilar.

Era isso ter marido, homem de sua vida, com obrigações de lhe dar carinho e ternura, de cuidar de seu corpo e de sua alma? - perguntava na praia, lânguida e desolada, Ruth de Morais Miranda, enquanto o sol queimava-lhe o corpo e o abandono roía-lhe a alma.

Tocado pela melancolia da senhora coronela, tão necessitada de assistência moral, de companhia a romper-lhe a dura solidão, o jovem Paiva não vacilou em sacrificar-lhe algumas horas de seus dias cheios de agradáveis afazeres.

Abandonou passeios, sensacionais peladas na praia, instrutivas conversas com colegas, e até um futuroso namoro. Generosa conduta de um coração bem formado, digna de todos os louvores.

Já que ali, em Periperi, não podia a ansiosa senhora encher suas tardes com sessões de cinema, visitas às amigas, compras na Rua Chile, ele colocou seu talento, sua juventude e um bigode inicial e sedutor a serviço daquela desolada aflição.

Por outro lado, conseguiu finalmente o tenente-coronel burlar um dia a rigidez dos horários militares. Iria fazer uma surpresa a sua mulherzinha, eternamente a queixar-se de sua ausência. Quando, ao voltar no começo da noite, queria orná-la nos braços, ela o repelia, vingativa, ferida em seu orgulho de mulher:

- Me larga aqui o dia todo, como se eu nem existisse ...

Comprou um quilo de uvas, fruta da predilecção de Ruth. Ela rompia com os dentes os bagos sumarentos. Comprou um queijo, uma lata de marmelada. E, para completar a festa, uma garrafa de vinho português. Tomou o trem das duas e meia da tarde, Ruth estaria solitária e triste, a pobre . . .

Não estava solitária e triste. Apenas atravessou a soleira da porta, teve o tenente-coronel a primeira surpresa: ao vê-lo, Zefa, a empregada, cuja dedicação ao casal datava de muitos anos, disparou pela porta dos fundos, a pedir socorro.

 Do quarto de dormir vinham sons alegres, o riso de Ruth e mais outro riso, meu Deus! Com os pacotes dependurados dos dedos, a garrafa de vinho sob o sovaco, Ananias arrombou a porta da alcova com um pontapé.

Site Meter