terça-feira, março 11, 2014

No meu tempo de menino aqui, era onde eu jogava à bola...
A aldeia

dos 

meus avós









Aldeia da Concavada - Espaço de Vivos...



Se sinto agora, quase aos 75 anos, alguma dificuldade em envelhecer devo-o à aldeia dos meus avós… Interno num colégio, passava ali as férias grandes na liberdade de uma aldeia onde quase todos eram tios e primos.

Tudo o que então podia fazer a minha felicidade de rapaz ali estava. O Largo da Chã- da- Eira onde dava xutos na bola contra a parede da capela, o rio Tejo que passava a meia hora de caminho, nem tanto, local ideal para piqueniques, banhos e pescarias e as longas tardes de verão para conversas amenas ou jogo de cartas…

Há anos voltei à aldeia dos meus avós com o meu sobrinho e de novo percorri todas aquelas ruas, a fonte onde as mulheres iam buscar água para beber com a bilha à cabeça, esquinas, pequenos largos, o local das tabernas, comércio de então, lugares que de tão familiares eu parava para os cumprimentar com o olhar… e eles até parecia que me falavam das pessoas com quem eu, em jovem, por ali me cruzava, cada uma com o seu passo característico nas rotinas próprias da hora do dia.

Para mim, era já uma enorme lista de gente a que o meu sobrinho, ao meu lado, não tinha acesso, já não eram do tempo dele, e com as quais nas minhas mais recuadas memórias me ia encontrando como se tivessem sido avisadas por alguém da minha visita...:

- “… Enxada às costas, tamancos nos pés, chapéu na cabeça, calças arregaçadas, o meu tio Firmino lá vai regar a horta, sempre composto, muito educado, bem apresentado, não fosse ele alfaiate:

- “O Sr. Lopes (o meu pai era António Lopes) arruma à esquerda ou à direita?”, perguntava-me ele, meio ajoelhado aos meus pés, metro esticado, a tirar as medidas para as calças.”


Eu não teria, então, mais que catorze ou quinze anos e o meu tio Firmino foi a primeira pessoa que me tratou por senhor, o que me deixava um pouco estranho… eu era apenas um rapaz mas o meu tio Firmino era um perfeito cavalheiro, muito educado.


A minha tia, vinha à porta e eu dava-lhe um beijinho como era próprio nos meninos da cidade, e ela perguntava-me invariavelmente:- “ Como estás?”

Eram pessoas de expressão serena, palavras calmas e curtas, de vidas rotineiras, ao sabor e ritmo de uma aldeia da província que anos atrás tinha sido atravessada pela estrada alcatroada que ia para as Beiras, o interior do país, e que na hora da passagem da camioneta da carreira ganhava alguma agitação.

A camioneta parava, exactamente, no Largo da Chã-da-Eira para despejar passageiros, fazer a entrega do saco do correio e seguir viagem até ao Gavião, uns quinze a vinte quilómetros à frente, no limite do Distrito.

O saco do correio era deixado na loja da minha prima Clementina, responsável pela entrega das cartas e ainda pelo único Telefone da aldeia, que era público.

A sua loja era um espaço social que ganhava vida às seis horas da tarde com a chegada da camioneta e dos passageiros.


 As pessoas, à falta do que fazer, encontravam-se ali para ver quem chegava, dar dois dedos de conversa e de coscuvilhice e eu… principalmente, para ver a Bia, moça mais velha, filha do Cabo de Ordens da aldeia, que estudava na Faculdade de Letras em Lisboa, única universitária que havia por aquelas paragens e que não nos passava cartão, a nós, miúdos do liceu…

Mas era difícil fugir ao seu poder de atracção, sempre muito bem arranjada, bonita, lábios pintados rigorosamente de um encarnado vivo que lhe ia a matar com o seu penteado de cabelos negros.

Assunto arrumado, a camioneta partia e lá ia a Bia, estrada fora, de regresso a casa no seu passo elegante como se desfilasse numa "passerelle" mas melhor, muito melhor, sem artificialismos parvos.

Ela sabia bem que nos deixava a nós, rapazes, de olhar pendurado no seu corpo ondulante até que, finalmente, desaparecia na curva. Voltaria amanhã ou no meu próximo sonho…

Tudo isto ficou tão vivo na minha memória que embora sendo tão longínquo no tempo de uma vida, permanece fresco e tão recente que eu continuo a ver-me, passados mais de sessenta anos, a passar férias na aldeia dos meus avós…

Por isso me custa a envelhecer… compreendem? De tudo quanto vivi foi o que de mais notável aconteceu: ... as minhas férias grandes na aldeia dos meus avós.

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