Vasco, ocupara, solitário, certa mesa estratégica... |
OS VELHOS
MARINHEIROS
Episódio Nº 39
Georges escancarou a boca, derrotado. Compreendera solidário o desprezo inicial da esposa, mas deu-lhe um prazo curto, dois ou três meses. Ela, no entanto, trancara-se definitivamente em sua desgraça, um fantasma a andar pela casa, os lábios macerados murmurando preces, escondida a beleza, apenas desabrochada, nos vestidos negros e nas lágrimas sem fim.
Passara a dormir no quarto do filho,
convertido numa espécie de capela votiva. Georges buscou, durante algum tempo,
romper-lhe as barreiras de dor e de abandono, sem obter resultado.
Conseguira transferência de posto e de
cidade, Gracinha continuara desinteressada de tudo que não fosse a memória do
filho e a vida eterna. Lavou então as mãos, foi viver sua vida.
Passava em casa o menor tempo que podia.
Ocupava-se com os problemas da Capitania dos Portos e da Escola de Aprendizes
Marinheiros, com o pequeno parque a cercar a casa ante o mar da Bahia.
Mudava a roupa, despia a farda,
vestia-se de civil, saía em busca de Jerónimo, no Palácio, do coronel, no QG do
19, ou ia directamente aos Barris, onde habitava, na casa herdada do avô, na
qual passara os primeiros anos de sua infância, Vasco Moscoso de Aragão.
Partiam para jogar bilhar, disputar o
aperitivo nos dados, jantar juntos, depois começava a hora das mulheres ou do
póquer.
A amizade de Vasco com aquela roda de
homens de tanto prestígio iniciara-se tempos antes, por causa exactamente do
Comandante Georges, num cabaré.
Vestido à paisana, Georges parecia, com
seus olhos azuis e seu cabelo loiro, um viajante estrangeiro, ninguém
adivinhava sua qualidade de capitão-de-fragata. Vasco ocupara, solitário, certa
mesa estratégica, perto do palco onde se exibiria Soraia, uma dançarina de
passagem pela cidade.
Ouvira falar dela e de suas danças por
um amigo, um sueco, importador de fumo, piaçava e cacau, com escritório na
cidade baixa, chamado Johann, cujo sobrenome era impossível de escrever-se e
pronunciar-se.
Na mesa do lado, estava o capitão dos
portos e Vasco tomou-o por um europeu, durante algum tempo divertiu-se a
adivinhar-lhe a nacionalidade exacta: italiano ou francês alemão ou holandês?
Se não bastassem o cabelo de trigo e os
olhos de azul-celeste, o fato de estar o cavalheiro acompanhado por apetitosa
mulata carregada na cor, reafirmava sua condição de gringo.
Perdeu-se Vasco em meditações. Era
curioso como as negras e mulatas exerciam uma poderosa sedução sobre os
estrangeiros. Não podiam ver uma cabrocha, ficavam na maior excitação.
Enquanto ele, brasileiro de sangue
misturado, dava a vida por uma loira, de pele branca quase cor-de-rosa. A que
se devia essa diversidade de gostos?
Não chegou a encontrar a resposta, pois
três indivíduos de cara amarrada entravam no cabaré e passavam ao seu lado,
empurrando-lhe grosseiramente a cadeira.
Traziam certamente uma intenção
determinada, via-se nos seus modos violentos: a intenção, comprovou Vasco em
seguida, de partir a cara do gringo e tomar-lhe a mulata à força.
Diabo de estrangeiro enganador ... O que
parecia ser um massacre em regra, transformou-se em encarniçada luta, o europeu
não era presa fácil. Voavam garrafas e cadeiras, Vasco não se conteve.
Achou um absurdo três caras contra um e
meteu-se no barulho, tomando as dores do desconhecido. A mulata gritava, um dos
sujeitos havia-lhe aplicado umas bofetadas. Vasco era forte, crescera
carregando fardos, aprendera com Giovanni golpes de capoeira.
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