quarta-feira, abril 30, 2014

Quanto ao Comandante. morreu nesse subúrbio de Periperi, em 1952
OS VELHOS
MARINHEIROS

Episódio Nº 67












Onde o narrador, atrapalhado e oportunista, recorre ao destino


Vejam os senhores: mete-se um esforçado historiador a pesquisar a verdade em anais tão embrulhados quanto estes, e, de repente, depara com versões desencontradas e opostas, na aparência merecedoras de crédito umas e outras.

 Em quem acreditar?

 Das duas versões expostas, a do próprio comandante, homem de méritos indiscutíveis, e a de Chico Pacheco, com tantos detalhes comprováveis, qual preferir e oferecer à boa fé dos leitores?

Está esse moço atravancado de obstáculos, rodas de leme e devassas de mulheres da vida, não sei como chegar-lhe ao fundo para de lá arrancar, resplandecente e nua, a verdade capaz de exaltar a memória de um dos dois adversários e expor a do outro a execração pública.

Exaltar a quem, qual desmascarar? Para ser sincero, devo confessar encontrar-me, nessa altura dos acontecimentos, desorientado e confuso.

Aconselhei-me com o Dr. Alberto Siqueira, nosso eminente porém discutido luminar da ciência jurídica. Juiz durante tantos anos, no inferior e na capital, devia estar ele apto a enxergar a luz da verdade nessa trapalhada toda.

Tirou o corpo fora, o Meritíssimo, afirmando ser-lhe impossível uma sentença ou mesmo um parecer sem aprofundada análise dos autos do processo. Como se estivesse julgando a pendência entre Chico Pacheco e o Estado, e não um trabalho de pesquisa histórica com vistas a um prémio do Arquivo Público.

Feriu-me o tratamento dado às minhas páginas e lhe disse. Mas o fátuo magistrado replicou-me secamente faltar ao meu estudo as mais rudimentares noções do que seja obra de historiador.

A começar pelas datas. Insuficiência de datas, ninguém consegue saber direito quando se passam os sucessos narrados, o tempo decorrido entre eles, dia, mês e ano de nascimento e morte das principais figuras.

Onde já se viu livro de História sem datas? O que é a História, senão uma sucessão de datas a recordar feitos e factos?

Engoli calado a crítica, não me havia preocupado com esse detalhe. E aproveito para esclarecer o assunto aqui mesmo, dando em seguida as datas mais necessárias.

De nascimento e morte, não sei de quase ninguém, nem do velho Moscoso, nem mesmo do Governador. Quanto ao comandante, morreu nesse subúrbio de Periperi, no ano de 1950, aos 82 anos de idade, e, fazendo-se as contas, logo se descobre ter nascido em 1868, andando pelos trinta e tantos anos quando se tornou amigo íntimo daquelas influentes personalidades.

Já se sabe haverem decorrido os factos narrados por Chico Pacheco, verídicos ou inventados, no começo do século, durante o governo José Marcelino, iniciado em 1904, e datar de 1929 a mudança do comandante para Periperi.

Que outras datas devo precisar? Não sei, para falar francamente. Aliás, nunca consegui decorar datas nos manuais de História, nem nomes de rios e vulcões nos de Geografia.

Ao demais, a seca restrição do Meritíssimo obedece menos a um justo critério crítico do que a certa má vontade em relação a mim, demonstrada ultimamente pelo juiz.

Começou há alguns dias, deixou de tratar-me com a mesma antiga estima, não mais me convidou a acompanhá-lo à casa de Dondoca pelas tardes, e, por mais que o adule, elogiando-lhe os conceitos e a virtude, mantém-se reservado, a olhar-me acusadoramente.

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