quarta-feira, maio 14, 2014

Muito obrigado, só fumo cachimbo
OS VELHOS

MARINHEIROS


Episódio Nº 79











- Quando eu era rapazola havia uma turca de casa aberta em Campina Grande. Um peixão. Mas cobrava os tubos, não chegava para o bico da rapaziada, só para os fazendeiros ricos - recordou o deputado.

A salada de frutas, com sua calda açucarada, quase provoca o desastre. Apenas o comandante engoliu a primeira e última colherada e foi-lhe necessário todo o carácter para contê-la no estômago. Havia uma confusão em suas vísceras, uma espécie de desgosto de viver, um desencanto.

Felizmente a gentil e bonita balzaquiana não viera ao refeitório. Não teria podido conversar com ela, não sentia gosto para nada, tudo quanto desejava era o fim do jantar.

- Quase não comeu, Comandante - o deputado devorava.

- Não estou passando bem, tive uma complicação devido a umas cajaranas verdes que comi. Não quero abusar.

- Pensei que estivesse enjoado, imagine. Um comandante enjoado, que absurdo!

Riram os três da idéia impossível e cómica. Vasco resolveu não arriscar o café. Esperou, contendo-se, que todos terminassem, para levantar-se dando por findo o jantar. O deputado tentava retê-lo no tombadilho:

- Se o senhor descobrisse, Comandante, um desses revolucionários escondido em seu beliche? Que faria? Entregaria à polícia ou guardaria segredo?

O que faria? Sabia lá como agir num caso desses? Não se metia em política, desde o fim do governo de José Marcelino e do assassinato de D. Carlos I, de Portugal e Algarves.

Não queria saber de revolucionários e revoluções, que se danassem Washington, Júlio Prestes, Getúlio, nada o impediria agora de voltar urgentemente à sua cabine. Nem a sorridente, criatura do cachorro, se por ali aparecesse. Queria ficar sozinho, deitado, a cabeça pousada num travesseiro.

- Desculpe, Doutor. Tenho de assumir meu posto, na ponte de comando. Ver como marcha a viagem.

- Pois vá e depois volte, vamos conversar. Estarei no salão de leitura.

Precipitou-se Vasco escada acima, a chuva açoitava a coberta reservada aos oficiais. Um vulto cruzou em seu caminho para a cabine.

- Boa noite, Comandante.

Era o médico de bordo, a fumar um charuto baiano:

- Vai à ponte, dar sua cachimbada? Não prefere um charuto? Retirava um do bolso da túnica, negro e malcheiroso.

- Muito obrigado, só fumo cachimbo . . .

- O senhor é nascido mesmo na Bahia? . ..

- Sou, sim...

- E não gosta de charutos? É um crime. - riu.

- Questão de hábito. Desculpe-me, vou descansar um pouco...

- Ainda tão cedo?

- Tive um dia fatigante . . .

- Pois então, boa noite.

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