sábado, dezembro 06, 2014

E nunca aprendi a roubar, não sei porquê.
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 117



















Para gáudio de uns, espanto de outros, quem desatou o nó e resolveu o problema, quem enfrentou a responsabilidade e assumiu a pesada carga foi - imagine-se! — a velha Jacinta Coroca.

Voltara de Taquaras com a tropa de Zé Raimundo, escanchada na cangalha de Lua Cheia, repicando guizos, no dia seguinte ao do saque, a tempo de constatar a depredação e medir o prejuízo.

Balançou a cabeça em silêncio, não foi apoquentar Fadul com perguntas e palpites.

Ao sentir, certa noite, a aflição do turco, tão grande a ponto de silenciá-lo durante a trajectória da fornicação habitualmente ruidosa e festiva, Coroca se ofereceu enquanto o asseava com delicadeza e zelo.

 - Se quiser, seu Fadu, vá sua viagem descansado que eu do tomo conta do negócio. Deixe comigo, faço suas vezes. Pode ir sem cuidado.

De pé, enorme e nu, pingando água da caceta desmarcada, o turco olhou estupefacto para Jacinta, que segurava um pedaço de sabão curvada em frente à pequena bacia de flandre comprada a prazo ao próprio Fadul.

Ele demorou-se a medi-la e a pesá-la como se nunca a tivesse visto.

- Tu tá propondo que eu viaje deixando o armazém aberto e tu respondendo por tudo, vendendo, recebendo, dando troco?

Depositando o peso de sabão junto à bacia, Coroca tomou de um trapo limpo, enxugou com cuidado o imponente saco e a notável estrovenga:

- E só me dar os preços por escrito, sei de uma porção. Vou dormir em riba do balcão até vancê chegar.

Ergueu o busto: à luz do fifó o corpo encarquilhado e frágil se alteou, os olhos cintilavam.

- Tu? - Fadul a encarava pasmo, boca aberta.

Uma brincadeira de mau gosto do Senhor Deus dos maronitas que mais uma vez o abandonava à sorte ingrata. Revoltado, fulo de raiva, elevou o pensamento aos céus: nesta hora adversa em que, desesperado, busco o auxílio de um homem macho competente e sério, o adjutório que me ofertais, Senhor, é essa puta velha e descarnada?

Então, uma luz brilhou no juízo de Fadul Abdala e ele entendeu que bravura, sabedoria e decência não são privilégios dos machos, dos ricos e dos fortes; são apanágio de qualquer mortal, mesmo em se tratando de uma puta velha e descarnada.

 Não era Coroca boa de cama e de conselho?

- Tu? - Repetiu com outro acento.

- Eu sim senhor. Maria Jacinta da Imaculada Conceição, que vancês trata de Coroca. Sei ler, assinar o nome e fazer conta e já cuidei de uma quitanda no Rio do Braço.

 Medo, só senti uma vez quando gostei de um homem, foi ele que me ensinou a ler.

Colocou o trapo ao lado do sabão e da bacia. Sorrindo, concluiu:

 - E nunca aprendi a roubar, nem sei por quê.

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