quarta-feira, janeiro 14, 2015

Podiam ser as jovens entrevistadas
Duas Muçulmanas

Dois Discursos












Olim Said, 22 anos, está com quatro amigas do Senegal e do Mali na Boutique La Rose D´Orient entre o 9º e o 18º Bairro, a escolher um vestido para o seu casamento.

Estão todas com o traje islâmico que deixa apenas mãos e rosto a descoberto, cada um da sua cor, parecem um arco- íris.

Olim usa uma máscara das que se utilizam para evitar contágio de doenças mas, ao contrário, deve ser apenas uma forma de contrariar a proibição do véu integral decretada em 2010 na França.

Começa por recusar a entrevista dizendo:

 - “Falar com jornalistas não é boa ideia. Distorcem tudo o que dizemos” mas como a jornalista insiste ela debita um discurso veloz, num francês perfeito, orgulhoso, cortante:

 - “Dizer que se é pela liberdade é muito bonito, mas não se pode fazer pouco de tudo. Já viu o que é para nós, para quem o profeta é mais importante e precioso que a nossa mãe, o nosso pai, toda a nossa família, ver uma imagem dele nu? Isso não pode fazer-se. Não está certo. O que aconteceu foi trágico, mas... os cartoonistas pensaram nos sentimentos dos muçulmanos ao ver aquilo?

E mais: dizem que se manifestam pela liberdade, mas negam a liberdade aos muçulmanos. Em quê? Olhe, por exemplo, proíbem-nos de nos vestirmos como queremos. Se uma mulher quer andar de niqab, - véu que cobre a cara e só deixa os olhos à vista -  é uma escolha dela, uma decisão dela, porque é que querem restringir-lhe os direitos? E quando andamos assim vestidas mandam-nos olhares de desprezo e ódio. É isto a liberdade?

Eu sou francesa, somos francesas, nascemos aqui, mas não temos os mesmos direitos, a mesma liberdade de decidir a nossa vida. Falam de liberdade mas não é para todos. E agora decretaram que somos todos terroristas...

Uma senhora, de uns 60 anos que escuta a entrevista interrompe:

- Dão-me licença que diga uma coisa?

Olim e a irmã Lali de 20 anos reagem:

 - Estamos a falar nós, pode esperar? Mas a senhora não desarma:

 - Eu pedi licença. Estão a falar com uma jornalista, não posso também falar?

Agressiva, Lalia retorque: “Foi ela que nos abordou e pediu a opinião. Mas já acabámos, de qualquer maneira temos de ir embora” e despedem-se num misto de dureza e simpatia com que responderam às perguntas.

Leila, a senhora que as interrompeu espera junto à porta.

Também sou muçulmana mas ouvi ali coisas que não posso deixar passar em claro. Elas queixam-se de falta de liberdade? Mas têm toda a liberdade. Podem usar véu, podem usar o que quiserem, fazerem o que quiserem. Irrita-me muito ouvir estas coisas. Não podem usar o niqab, queixam-se disso mas o Corão não diz em parte nenhuma que as mulheres têm de andar assim. Esse traje é para as mulheres do profeta, será que elas se acham com esse estatuto?” Ri.

“Eu sou a favor da proibição do véu integral, não sabemos quem vai lá por baixo, homem ou mulher... Tem sido usado para atentados terroristas. Estas pessoas...dá-se a mão e querem o braço. E viu como me atacaram todas ao mesmo tempo? Mesmo pedindo licença caíram-me em cima. Repare, eu sou argelina, fugi da Argélia por causa do fundamentalismo. Não me deixavam trabalhar porque me recusava a usar o véu e agora sinto que me apanhou outra vez...

Discursos diferentes, muito diferentes, como se percebe, entre muçulmanas de gerações e experiências de vida também diferentes, mas todas francesas, todas de Paris, que vão às compras às mesmas lojas.

A religião do profeta divide os muçulmanos não só entre sunitas e xiitas, como é sabido, desde a origem mas, principalmente, pela maneira como cada um vive e interpreta os preceitos religiosos que estão no Corão e outros que nem sequer lá constam.

Tal como no judaísmo ou no cristianismo, há maneiras substancialmente diferentes de viver a mesma religião consoante o grau de religiosidade de cada um.

Os piores de todos são os fundamentalistas, radicais, para quem a vida não existe fora da religião e são esses excessos das religiões que constituem uma espécie de cruz da humanidade.

Para eles, e isto é agora mais verdadeiro no Islamismo, os que não respeitam as regras são hereges, o seu crime é chamado de blasfémia e é castigado com violência física, privação da liberdade e a própria vida.

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