domingo, fevereiro 15, 2015

Largo do Seminário em Santarém
HOJE É DOMINGO

(Na minha cidade de Santarém em 15/2/15)



















Pois é, diz o povo, na sua manhosa sabedoria de quem é velho e acumulou mais vícios que virtudes, que “nunca mais é sábado...”!

"… ah!, abençoado descanso que nunca mais chegas..." - O trabalho feito castigo, herança da nossa cultura ancestral judaico-cristã, (parece que nos portámos mal no paraíso...) persegue-nos, só nos dá tréguas ao Domingo.

Eu também respeito essas tréguas: ao Domingo não há a história da Tocaia Grande nem a Mixórdia das Temáticas ou a Camada de Nervos. Não gosto de ser desmancha-prazeres ou de armar em diferente. 


Descansar ao Domingo, afinal, é quebrar a rotina dos dias de trabalho mas como acontece invariavelmente de sete em sete dias acaba também por ser outra rotina.

Tal como vos dizia, meus amigos, tudo na vida são rotinas na vã tentativa de iludir o tempo… o tempo da nossa vida.

E cá estou eu, a tomar o pequeno-almoço no Café do costume, do Rui e da Patrícia que tiveram agora o João, de jornal à minha frente, alheado das conversas que me rodeiam… Sim, é verdade, a leitura do jornal tornou-se num vício para mim, aprecio o contacto com o papel, o seu cheiro, gosto de o desfolhar.

Notícias, opiniões, comentários, mesmo as que já são conhecidas, têm que ser confirmadas na leitura dos jornais. Neste aspecto, o computador veio tarde para mim que comecei a comprar o jornal atirando para o passeio, onde eles estavam alinhados ao lado uns dos outros, uma moeda de escudo... há quantos anos!

Percebo como estou velho… lembro-me de ter vivido demasiadas coisas que pertencem a um passado recuado, direi mesmo que algumas já são história: a candidatura de Humberto Delgado desafiando Salazar, em 1958 com a célebre frase de "como é óbvio demito-o,"a independência de Moçambique, em 25 de Junho de 1975, na cidade da Beira, a guerra colonial em Angola nos seus primórdios, em fins de 1962/65, e mais recuado ainda, na década de 40, com uma ideia já muito esbatida, a Rua José Patrocínio, no Poço do Bispo, onde nasci, num prédio com terraço, revestido a azulejos verdes que hoje, se ainda estiver de pé, estará em ruínas e uns metros à frente a escola da Profª Srª Dª Ludovina de quem aqui já vos falei.

Ainda até há bem pouco tempo pegava no saco do ténis e ia jogar com o meu amigo Carlos como se o tempo e os anos não tivessem passado.

Que diriam os velhos da aldeia dos meus avós paternos, tios e parentes em boa parte, pelo menos no tratamento: o Ti Zé Menaia, que tinha andado na Guerra de 194/18 como maqueiro e sofrido com os gases, o Ti Manel, a Ti Maria, eram todos “tios”e “tias” independentemente de o serem ou não.

Uma coisa é certa, era impossível alguém morrer sem que a aldeia não o soubesse na hora… a aldeia era grande família!

Sim, podia não haver abastança, em alguns casos haveria mesmo fome, não sei, a comida então era pouca e não daria para encher completamente a barriga de muitos deles, nunca tinha dado, mas não viviam a humilhação dos caixotes de lixo nem corriam o risco de serem ignorados, esquecidos.

Se não tinham um Centro de Saúde para se juntarem esperando a consulta do médico, as mulheres tinham a fonte onde se sentavam, primeiro à espera de vez para encherem o cântaro, ou simplesmente para porem a conversa em dia, consoante a disponibilidade do tempo para as tarefas da casa, e quando não eram horas de encontro na fonte sentavam-se em pequenas cadeirinhas de verga, junto das portas, a apanhar o fresco do fim da tarde e a conversar com as vizinhas que passavam.

Os homens, esses, entretinham-se nas hortas ou trabalhavam para algum patrão à jorna, se havia trabalho, e quando o sol ameaçava finalmente pôr-se naqueles intermináveis dias de verão que pareciam nunca mais acabar, juntavam-se em frente das tabernas que funcionavam também como pequenas mercearias, conversando e fumando os seus cigarros de tabaco de onça Superior enrolados em folhas de papel Zig-Zag.

Essa aldeia dos meus avós já não existe. A auto-estrada da Beira, que lhe passa ao lado, do outro lado do rio, roubou-lhe grande parte do trânsito que a atravessava e desferiu-lhe o golpe de misericórdia.

Depois do êxodo para as cidades, o corte das ligações...malditas auto-estradas… espécie de linhas de caminho de ferro sem comboios, nem estações ou sequer apeadeiros, retalharam o país, isolando as terras, as pequenas localidades, retirando-lhes importância, humilhando-as.



Dizem que é o progresso, o avanço, a modernidade, certo, mas é também o agonizar de um mundo, de um país rural que tinha uma vida própria e agora está moribundo sem que o outro, o das cidades, o faça esquecer.

Vejam lá que agora, lá para os lados do Algarve, apareceu uma aldeia inteira à venda, não sei com quantas casas e ruas, tudo abandonado, já se vê. 

Quem havia de dizer que as aldeias do meu Portugal acabariam vendidas por anúncio nas páginas dos jornais.
   

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