sábado, agosto 08, 2015

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)


Episódio Nº 36

















Contudo, Fernão Peres torceu o nariz, insatisfeito. Os Trava não eram estimados pelos nobres de entre Douro e Minho, seria difícil alguma dessas famílias aprovar tal casamento.

Além disso, acrescentou, devia ser alguém de sangue real.

Como se tivesse ouvido um disparate, Dona Teresa insurgiu-se:

- De sangue real só existem as minhas filhas!

Para surpresa dela, Fernão sorriu-lhe. Dona Teresa, ao dar-se conta do plano, pareceu momentaneamente chocada com a perversidade da solução.

O Bermudo, meu marido, casar com uma filha minha? O arcebispo de Braga ainda me excomunga!

Com a mestria habitual, o Trava retirou-lhe as dúvidas. Paio Mendes iria espernear, mas aceitaria se recebesse umas doações!

- Constrói-se-lhes um mosteiro que eles calam-se todos!

A ideia era sublime, insistiu Fernão: Bermudo ficaria satisfeito e Dona Teresa ligava os Peres de Trava, a mais poderosa nobreza da Galiza, à sua própria família e desta vez com um casamento religioso!

Dona Teresa estava de tal forma enfeitiçada por ele que, pouco depois, já aceitava aquela solução.

- Qual das minhas filhas? – perguntou.

O Trava encolheu os ombros, como se fosse óbvio:

 - A Urraca Henriques, claro! A outra desfazia o desgraçado do Bermudo na primeira noite.

Desataram os dois à gargalhada. Sancha Henriques, a segunda filha de Dona Teresa, parecia um brutamontes nos seus modos, e já protagonizara várias cenas de pancadaria com os que haviam tentado seduzi-la.

Já Urraca Henriques, a mais velha, aos vinte e dois anos era uma paz de alma e não fazia mal a uma mosca.

Subjugada, Dona Teresa, apreciou o amante que voltara a colocar as mãos na nuca, convencido da genialidade das suas artimanhas.

Excitada com aquela espantosa confiança, a rainha exclamou:

 - Ai amigo, folguemos mais, que me perco por vós!

No seu posto de observação privilegiado, a minha prima assistiu à continuação daqueles jogos de amor. Embora nunca os tivesse praticado (tinha apenas oito anos), Raimunda já os vira com diversos protagonistas, espreitando em fechaduras e frestas.

Entre homens e mulheres, era tudo quase sempre idêntico, mas a minha prima notou naqueles dois um forte empolgamento, talvez por ser a primeira vez, ou por terem a pressa dos traidores.

Viu-os afastarem a colcha de púrpura, bem como a manta ornamentada e movimentarem-se agitados em cima da leve almocela de seda que cobria os colchões, e viu a rainha montar o Trava como se fosse uma amazona, enquanto o seu peito polpudo tremelicava.

Raimunda era uma magricela e parecia um rapaz, cobiçou os seios arredondados e volumosos de Dona Teresa. Era sabido que ela untava os mamilos com mezinhas, para os manter firmes, e a minha declarou-nos mais tarde, com convicção acintosa:

 - As outras da idade dela têm tetas que mais parecem orelhas de perdigueiros!

Ainda descreveu a rainha a pousar a cara no pulvinar de penas, os cabelos cobrindo o “godemeci” de pele de vaca que estava à cabeceira da cama, curtido e envernizado, provavelmente fabricado na longínqua Córdova, enquanto o Trava a possuía por trás.

Porém, e apesar dos pormenores que nos forneceu, não era naquela ardente refrega que a minha prima reflectia, deitada no telhado.

Na manhã seguinte, teria de avisar seu pai, Ermígio, e seu tio, Egas Moniz, pois o que ali ouvira soava perigoso.

Sobretudo para o seu amado Afonso Henriques. O novo amante de Dona Teresa era muito mais hábil do que o irmão Bermudo, e até uma menina de oito anos sabia que são sempre os ardilosos quem mais devíamos temer.

O Trava era um perigo e, se subjugava assim Dona Teresa, em breve mandaria no Condado Portucalense.


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