quinta-feira, outubro 22, 2015

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)

Episódio Nº 90


















E o Braganção? Perguntou Gonçalo.

Alguém garantiu que andava de roda de Sancha Henriques, e parimos mais uma vez sem ele, enrolados nos nossos mantos, para tentarmos passar despercebidos entre o povo que comia, bebia, cantava e dançava à volta das fogueiras.

Lavradores e almocreves, jograis e trovadores, soldadeiras e prostitutas, cavaleiros-vilões e peões, escudeiros e criadas do castelo, padeiras e talhantes, todos aproveitavam aquela noite para se alegrarem, enquanto os muitos mendigos de rua pousavam como moscas nos restos de comida da festarola.

A dado momento cruzámo-nos com o homem que, no dia antes, interpretara Jesus durante a missa, e Gonçalo comentou:

 - Lá vai o Cristo, ressuscitou um dia mais cedo à custa da pinga!

O indivíduo cambaleava e rasou um grupo de mal encarados, sentados no chão sem beber ou dançar, um dos quais tinha a cara deformada, avermelhada e inchada, mal se vendo o olho esquerdo.

Eram roliços bobos da Galiza, pagos pelo trava para soltarem larachas e divertirem a populaça, chamando-se um Fruela e o outro Ordonho, como os antigos reis godos das Astúrias.

Afonso Henriques murmurou:

 - São os homens do Gondomar, vão para Soure amanhã.

Gonçalo fez uma careta arrepiada e disse.

 - E queriam que eu fosse com eles! Morria de susto com aquele camafeu a meu lado todas as noites!

Talvez fosse aquela horripilante enfermidade que distinguia o grupo e o afastava da festa em geral. Conversavam de cabeça baixa como se suspeitassem de alguém ou estivessem fugidos à justiça régia.

Deixamo-los para trás e dirigimo-nos a uma pequena tenda dentro da qual se servia o vinho, onde demos com a rapariga normanda, perante quem Afonso Henriques decidiu ridicularizar Gonçalo.

- O Sousinha diz que passou a noite de ontem convosco.

Elvira parou de servir o vinho, irritada. Era mesmo alta e o seu cabelo estava agarrado com um carrapito, mas o brilho nos seus olhos, que crepitara ao ver o príncipe, extinguiu-se num ápice.

Não falais verdade, não sois de confiança – disse a Gonçalo.

Este, habituado mais a escarnecer do que a ser escarnecido, murmurou que estava bêbado, mas Elvira manteve o ar zangado.

- Pois ficai sabendo que nem em sonhos me daria a vós.

Ofendida na sua reputação, virou-nos as costas e saiu da tenda, abandonando o serviço, apesar dos protestos de quem esperava por vinho.

Afonso Henriques ergueu a sobrancelha e murmurou:

 - É no que dão as vossas trapaças...

Gonçalo encolheu os ombros e logo sugeriu que nos acercássemos da fogueira, onde havia risada geral, originada por dois rapazes gémeos.

Eram roliços bobos da Galiza, pagos pelo Trava para soltarem larachas e divertirem a populaça, chamando-se um Fruela e o outro Ordonho, como os antigos reis godos das Astúrias.

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