terça-feira, outubro 27, 2015

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)


Episódio Nº 94



















Mem desatrelou os dois jumentos, amarrando-os a um carvalho e examinou a perna do que coxeava. Tinha um inchaço um pouco abaixo do joelho, provavelmente de uma pancada numa pedra.

A estrada estava cheia delas, a carroça andava aos solavancos e os jumentos nem sempre as conseguiam evitar. Foi buscar um pó que lhe tinham vendido em Santarém e massajou o bicho no local da dor.

Depois, procurou uma zona onde a erva estivesse baixa, para se deitar.

Estava a estender uma manta no chão, quando viu uma luz ténue vinda das ruínas de Soure. Pensara em acender uma fogueira para afastar os animais selvagens do carregamento e dos cansados jumentos, mas decidiu não o fazer pois tinha consigo um arco e umas flechas, e preferia atirar sobre um lobo ou um urso do que atrair a atenção dos salteadores.

Agora, estava contente pela decisão que tomara. Aprendera a usar o arco em Coimbra, durante os anos que lá vivera depois da morte do pai, e tinha consigo flechas suficientes para derrubar quatro ou cinco homens.

Aproximou-se das ruínas, mas mesmo andando lentamente não conseguiu evitar bosta de animal. Talvez andassem por ali ursos ou lobos, e aguçou os ouvidos.

Como estava muito escuro, teve dificuldade em subir pelos destroços da muralha até encontrar local para se agachar.

A vinte metros dele, uma pequena fogueira ardia, iluminando o interior daquela desastrada alcáçova. Porém, não viu ninguém junto ao fogo, nem qualquer sinal de gente.

De súbito, sentiu uma rabanada de vento sobrevoá-lo e estranhou. No céu, as nuvens que escondiam a lua moviam-se lentamente.

Notou um ligeiro cheiro a âmbar, mas não existia movimento de seres, humanos ou animais, atrás de si ou à sua frente, dentro ou fora do castelo.

Começou a sentir-se ensonado e decidiu que era melhor regressar para junto dos jumentos, mas o seu corpo parecia estranhamente pesado e sem energia, e apoderou-se de Mem um receio agudo.

Todavia, era tarde de mais, um paralisante cansaço venceu-o e tombou em cima das pedras.

A meio da noite acordou em frente à fogueira e não se lembrava de como ali viera parar. Fixou as labaredas tentando recordar-se.

Vira as nuvens, deitado em cima das pedras, e depois sentira o vento e o cheiro... Uma vaga de terror assaltou-o, talvez alguém tivesse roubado o seu ganha-pão.

Libertou um palavrão e, para seu grande susto, ouviu nas suas costas uma voz:

 - Descansai, os jumentos estão bem e a carroça também.

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