Na guerra de Angola, logo ao princípio, em 1963, as fazendas de café estavam abandonadas pelos seus proprietários que regressaram a Luanda ou a Portugal, aguardando o desenrolar dos acontecimentos.
O Quartel - General,
no cumprimento de instruções políticas, decidiu recuperar as explorações agrícolas
e para isso a tropa tinha que ir à frente para dar protecção aos trabalhadores
e capatazes.
O Alferes Matos, já
não me lembro bem porquê, era o mais antigo, não sei se por uma questão de
ordem alfabética ou porque fui o primeiro a chegar à porta-de-armas, e como na
tropa a antiguidade é um posto, nessa qualidade, era o primeiro a alinhar...
Aceitei sempre, pacificamente,
essa “honrosa distinção” que me fez andar para a frente sempre em primeiro
lugar... ou para escoltar um fazendeiro no trajecto até a roça, logo no
primeiro dia em que chegámos ao Úcua, ou para ir ocupar uma fazenda abandonada
pelos proprietários fugidos para Luanda no início do terrorismo, em Março de
1961.
Sinceramente, não
era nada que me desagradasse, conferia-me primazia nas saídas e autonomia e
liberdade, nos meus destacamentos, afastado da Companhia e do Batalhão.
Não tinha Sargentos
ou Furries em quem me apoiar o que não me fazia falta alguma. Um deles, passava
o tempo a caçar passarinhos com uma flober e o outro, que era Quadro, não se
metia naquelas coisas...
A água era a
primeira e grande preocupação quando chegávamos a qualquer lado, para beber e para cozinhar e assim foi, quando chegámos à fazenda Rainha Santa.
Lá estavam logo os
soldados a subir para o Unimog carregado com os bidões vazios prontos para a
sua primeira viagem ao riacho onde os esperava a abençoada água.
Os soldados
detestavam andar. Aparecia uma viatura e era ver quem se sentava primeiro
apesar da incomodidade que era viajar naquela espécie de estradas em cima dos Unimogues
a gasóleo, estreitos e bailarinos.
- Eh, pá! - Para onde é
que vocês vão? – Em cima da viatura só vai o condutor! Os outros, a pé, caminham
ao lado, dedo no gatilho e toda a atenção ao verde do mato... e lá foram eles à
água do riacho enquanto eu fui fazer a barba.
Tinha a cara
ensaboada quando começou o tiroteio. Peguei na minha FBP e fui a correr
dando tiros para o ar enquanto gritava: - Lá vai tropa... Lá vai tropa!!!
Pouco depois, silêncio, acabaram os tiros e eu fui a pé esperar o Unimog que, como era óbvio,
tinha caído numa emboscada que o esperava à chegada do ribeiro.
Sem saber se havia feridos ou mortos em resultado de todo aquele tiroteio esperei com o coração apertado, confesso, e finalmente lá se ouviu o matraquear do motor do Unimog que regressava sem água mas também sem feridos ou mortos... tirando o cagaço, todos vinham bem.
Sem saber se havia feridos ou mortos em resultado de todo aquele tiroteio esperei com o coração apertado, confesso, e finalmente lá se ouviu o matraquear do motor do Unimog que regressava sem água mas também sem feridos ou mortos... tirando o cagaço, todos vinham bem.
Tinha sido essencial
o cumprimento das instruções:
- “Em cima da viatura só o condutor, os outros, ao lado e atrás, dedo no gatilho e com toda a atenção...”
- “Em cima da viatura só o condutor, os outros, ao lado e atrás, dedo no gatilho e com toda a atenção...”
Tinham-nos armado
uma emboscada mas foram eles que acabaram por cair nela... e a água do ribeiro
ficou provisoriamente imprópria para beber, tinta de sangue... que felizmente não
era o nosso.
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