terça-feira, novembro 29, 2016

Morreu Fidel























E eu, que sempre fui uma pessoa de esquerda desde que nasci, menino rico, junto a um bairro de rapazinhos de pé descalço, lá no Poço do Bispo, na zona Oriental da Lisboa operária, nos anos idos de 1939, porque essas desigualdades feriam a minha sensibilidade de criança, não posso esquecer Fidel de Castro nem Fulgêncio Batista, este último, defensor dos privilégios dos ricos, que eram os meus nessa altura, e o primeiro, portador da esperança de justiça social quando entrou em Havana, em 1959, de mochila às costas e espingarda a tiracolo, tinha eu 20 anos.

Em criança, via mas não percebia bem porque é que eu andava de sapatinhos e meinhas brancas e tinha de me comportar bem, e os outros meninos, os da rua, corriam livremente e andavam descalços. 

O local do meu nascimento marcou-me politicamente para sempre, nessa altura sem eu saber bem porquê, pelo que via de desigualdades entre a vida que então levava e a dos outros meninos, os que andavam na rua de pé descalço.

Desde 1959, muita coisa aconteceu em Cuba de bom e de mau, mas aqueles milhares de cubanos que desde a madrugada esperaram para passarem em frente dos retratos de Fidel, rodeados de uma guarda-de-honra, para lhe prestarem uma última homenagem, a maioria esmagadora deles estava ali de alma e coração, de forma sentida e não porque fossem obrigados.

Registo aqui, no Memórias Futuras, o testemunho que considero tocante, porque sincero, de um engenheiro civil de 65 anos:

 - “Ele foi o homem que nos libertou e enviou médicos e professores para todo o mundo”.

Claro que, por outro lado, temos os cubanos refugiados em Miami que, ao contrário destes, celebram a sua morte e pedem liberdade e democracia para Cuba. Não fosse assim, e Fidel não teria sido um revolucionário como foi, desagradando a muita gente que estava bem instalada na sociedade com Fulgêncio Batista.

As revoluções são rupturas violentas, porque profundas, mexem com as vidas de muitas pessoas importantes e poderosas de uma sociedade e daí as convulsões que suscitam.

Aqui, em Portugal, não tivemos um Fulgêncio Batista nem um Fidel de Castro, nem montanhas. As que temos, ainda assim, serviram a Viriato para combater os romanos, mas tivemos um Salazar e uma PIDE, por um lado e, pelo o outro, o MFA - Movimento das Forças Armadas, com Otelo Saraiva de Carvalho e muitos outros no que veio a  dar ao mesmo: uma revolução... 

Uma revolução especial, é certo, porque nós, portugueses, também somos especiais, com uma identidade própria que nos dá para pôr cravos nos canos das espingardas dos revolucionários...

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