segunda-feira, fevereiro 06, 2017

Mar me Quer

Terceiro Capítulo
A canoa se fez ao mar, um cisco entrou nos 
olhos de Deus.
(Dito do avô Celestino)


Episódio nº 9


Não sei porque Dona Luarmina chorou, quando lhe contei a história do velho. Se foi ela que me pediu! Eu lhe tinha avisado da tristeza dessa memória, mas ela insistiu. Foi só por isso que desatei as lembranças.
Meu pai se chamava Agualberto Salvo – Erro. Em tudo ele seria pessoa. Só um senão atrapalhava sua humanidade. meu velho tinha olhos de tubarão. Não que fossem olhos de nascença.
Aconteceu-se quando, certa vez, ele saltou do barco para salvar sua amada. Era uma moça muito nova que ele encontrara em outras terras. Trazia-a sempre no barco, em companhia das pescas.
Fim do dia, antes de trazer o peixe à praia, meu pai encaminhava o barco para alem do horizonte para ir deixar a moça. Quem seria tal rapariga, de onde era? Mistério que ficou e há-de ficar com Agualberto.
Nessa tarde, meu pai pescava próximo da nossa praia. O tempo estava encabrinhado. Eu apurava as vistas, tentando espreitar a figura dessa que acompanhava meu pai. Minha mãe virava as costas ao oceano.
- Já viu o pai, lá?
Minha mãe nada respondia. Estava ocupada nas lenhas, no fogo, no jantar. Fiquei assim na berma da praia, olhando o concho alternando-se com o mar, visão e desaparência. Até que, de repente, notei um vulto tombando no mar. Era a moça.
Meu pai, em aflição, saltou em socorro dela. Mergulhou nas funduras das águas e ficou dentro do mar mais tempo que um peito autoriza.
Saíram os restantes barcos, em salvação. Contaram-se segundos, minutos, lágrimas, suspiros. Só ao fim do dia meu velho reapareceu na superfície. Já ninguém esperava que ele ressurgisse. Mas para espantação e reza meu pai golfinhou-se entre as ondas e gritou como se o céu inteiro lhe entrasse no peito. O povo chamava:
- Está vivo, está vivo!
Os pescadores correram a recolher o ressurgido companheiro. Festejaram, dançando e cantando enquanto os barcos se faziam à praia. As mulheres ululavam em manifestação de satisfação.
Minha mãe avançou e se perfilou perante o homem. Que se passaria por detrás daquela aparência dela? Afinal, essa mulher que meu pai tentara salvar era uma outra, rival e ilegítima.
Mesmo assim ela enfrentou meu velho. Seus olhos subiram do chão até se fixarem no rosto dele. Foi quando ela gritou, tapando o rosto com as mãos. Os restantes se aproximaram de meu pai e um rumor se espalhou como nuvem fria.
 - Os olhos dele!
Sim, os olhos de Agualberto não eram os mesmos. Ninguém conseguia olhar meu pai de frente. Porque aqueles olhos dele estavam da mesma cor do mar: azuis, de transparência marinha.
Sua humanidade estava lavada a modos de peixe. Ele ficara muitíssimo demasiado tempo debaixo do mar. E se espalhou um murmúrio de que Agualberto tinha os olhos de tubarão, tal iguais aos grandes e dentilhados bichos.
A partir desse dia, meu pai, se adentrou em si mesmo, toda a hora sentado na praia contemplando o horizonte. Passavam gentes, vindas de longe para espreitar de longe o preto de olhos de cor do mar.
Minha mãe, certa vez, me afastou por um braço, e sussurrou uma angústia:
- Essa mulher, outra, será mesmo que morreu de vez?

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