quinta-feira, março 16, 2017

CRENÇAS RUINS























Por que razão é tão difícil erradicar crenças ruins?

- A razão tem a ver com a natureza das próprias crenças que estão biologicamente preparadas para serem resistentes à mudança porque foram designadas para aumentar a nossa habilidade de sobreviver.

Para mudar as crenças os cépticos devem aceder às habilidades de sobrevivência do cérebro discutindo os significados e as implicações para além dos dados.

Uma noção básica do espírito crítico e científico é de que as crenças estão erradas e por isso, é muitas vezes confuso e irritante para cientistas e cépticos que as crenças de tantas pessoas não mudem diante de evidências contraditórias.

Perguntamo-nos como é que as pessoas acreditam em coisas que contradizem os factos?

Essa confusão pode criar uma terrível tendência da parte dos pensadores cépticos de diminuir e menosprezar as pessoas cujas crenças não mudam face às evidências.

Elas podem ser olhadas como inferiores, estúpidas ou até malucas. Esta atitude, resulta de uma falha dos cépticos ao não compreenderem o propósito biológico das crenças e a necessidade neurológica de que elas sejam resistentes à mudança.

A verdade é que, por causa do seu pensamento rigoroso, muitos cépticos não têm uma compreensão clara ou racional do que são as crenças e por que, mesmo as mais erradas, não desaparecem facilmente.

Entender o propósito biológico das convicções pode ajudar os cépticos a serem muito mais eficientes no desafio às crenças irracionais e na divulgação de conclusões científicas.

Embora faça muito mais do que isso a finalidade primária dos nossos cérebros é manter-nos vivos e a sobrevivência irá ser sempre o seu principal propósito e virá sempre em primeiro lugar.

Se formos ameaçados ao ponto dos nossos corpos ficarem apenas com energia suficiente para suportar a consciência ou o coração a bater mas não as duas coisas em simultâneo, o cérebro não tem problema em “apagar-se” e colocar-nos em coma (sobrevivência à frente da consciência) em vez de ficar alerta até à morte (consciência à frente da sobrevivência).

Como cada actividade do cérebro serve fundamentalmente para isso, a única maneira de entender precisamente qualquer função cerebral é examinar o seu valor como instrumento de sobrevivência.

Mesmo a dificuldade de tratar desordens comportamentais como a obesidade e vícios pode ser entendida examinando a sua relação com a sobrevivência.

Qualquer redução no consumo calórico ou na disponibilidade de uma substância na qual um indivíduo é viciado é sempre interpretada pelo cérebro como uma ameaça à sobrevivência e o resultado disso é que o cérebro defende-se criando aquelas reacções típicas da síndrome da abstinência.

As ferramentas primárias do cérebro para garantir a nossa sobrevivência são os sentidos. Obviamente, devemos ser hábeis em perceber com precisão o perigo para podermos tomar atitudes que nos mantenham em segurança.

Para sobreviver temos que ver o leão à saída da caverna e ouvir o intruso invadindo a nossa casa a meio da noite.

Apesar disso, os sentidos sozinhos são inadequados como detectores do perigo porque são limitados no alcance e na área. Nós só podemos ter contacto sensorial directo com uma pequena porção do mundo de cada vez.

O cérebro considera esse um problema significativo porque, mesmo o dia-a-dia, requer que estejamos constantemente em movimento, dentro e fora do nosso campo de percepção do mundo como é agora.

Entrar num território que nós nunca vimos ou ouvimos coloca-nos na perigosa posição de não termos nenhuma noção dos perigos possíveis. Se entrar num prédio desconhecido ou numa parte perigosa da cidade, as minhas chances de sobrevivência diminuem porque não tenho como saber se o teto está para cair na minha cabeça ou se um atirador está escondido atrás da porta.

É aqui que entra a crença.

Crença: é o nome que damos à ferramenta de sobrevivência do cérebro que existe para aumentar a função de identificação de perigos dos nossos sentidos.

As crenças estendem o alcance dos nossos sentidos de maneira que podemos detectar melhor o perigo e aumentar as nossas chances de sobrevivência em território desconhecido. Em essência, elas servem-nos como detectores de perigo de longo alcance.

Do ponto de vista funcional, os nossos cérebros tratam as crenças como “mapas” da parte do mundo que não podemos ver no momento.

Enquanto estou sentado na minha sala de estar não posso ver o meu carro. Apesar de o ter estacionado na minha garagem há algum tempo, se eu usar os dados sensoriais imediatos, eu não sei se ele ainda lá está, por isso, neste momento os dados sensoriais não são de grande utilidade para encontrar o meu carro.

Para que eu encontre o meu carro com algum grau de eficiência, o meu cérebro deve ignorar a informação sensorial actual e voltar-se para o seu “mapa” interno do local do meu carro.

Esta é a minha crença de que o carro ainda está no local onde o deixei. Se me referir à minha crença em vez de aos dados sensoriais, o meu cérebro pode “saber” alguma coisa sobre o mundo com o qual não tenho contacto imediato.

Esta faculdade “estende” o conhecimento e o contacto do cérebro com o mundo para além do alcance dos nossos sentidos imediatos aumentando as nossas possibilidades de sobrevivência.

Um homem das cavernas tem mais hipóteses de sobreviver se acreditar que o perigo existe na floresta embora ele não o veja, da mesma forma que um polícia estará mais seguro se acreditar que alguém parado por infracção de trânsito pode ser um psicopata armado embora tenha aparência de boa pessoa.

Tanto os sentidos como as crenças são ferramentas para a sobrevivência e evoluíram para se alimentarem um ao outro e, por isso, o nosso cérebro considera-os separados mas igualmente importantes como fontes de informação para a sobrevivência.

A perda de qualquer um deles coloca-nos em perigo. Sem os nossos sentidos não poderíamos conhecer o mundo perceptível e sem as nossas crenças nada poderíamos saber do que está fora dos nossos sentidos, nem sobre significado, razões e causas.

Isto significa que as crenças existem para operar independentemente dos dados sensoriais.

Na verdade, todo o valor das crenças para a sobrevivência baseia-se na sua capacidade de persistirem não obstante as evidências em contrário.

As crenças não devem mudar facilmente ou simplesmente por causa de evidências que as neguem. Se elas o fizessem não tinham nenhuma utilidade para a sobrevivência. O nosso homem das cavernas não duraria muito se a sua crença em perigos potenciais na floresta se evaporasse toda a vez que ele não visse esses perigos.

Para o cérebro não há absolutamente nenhuma necessidade que os dados e as crenças concordem entre si. Cada um delas evoluiu para aumentar e melhorar a outra pelo contacto com diferentes secções do mundo.

Foram preparadas para poderem discordar e por isso é que cientistas podem acreditar em Deus e pessoas que são geralmente razoáveis e racionais podem acreditar em coisas sem evidências dignas de crédito como discos voadores, telepatia ou psicocinese.

Quando dados e crenças entram em conflito o cérebro não dá preferência aos dados e é por isso que crenças, mesmo disparatadas, ruins, irracionais ou loucas, raramente desaparecem diante de evidências contraditórias.

O cérebro não se importa se a crença concorda com os dados, ele apenas se preocupa se a crença ajuda à sobrevivência e ponto final.

Então, enquanto a parte racional e científica do nosso cérebro pode pensar que os dados deviam confirmar a crença, a um nível mais profundo ele nem liga a isso. Ele é extraordinariamente reticente em reavaliar as suas convicções.

E como um velho soldado com o seu revólver que não acredita que a guerra acabou, também o cérebro se recusa a entregar as armas mesmo que os factos desmintam aquilo em que ele crê.

Mesmo as crenças que não parecem, estão intimamente ligadas á sobrevivência porque as crenças não ocorrem individualmente ou no vácuo. Elas relacionam-se umas com as outras formando uma rede que cria a visão do mundo fundamental do cérebro e daqui a importância de manter intacta essa rede.

Pequenas que sejam e aparentemente sem importância, qualquer pequena convicção é defendida até ao fim.

Por exemplo, um Criacionista não pode tolerar a precisão dos dados que indicam a realidade da evolução, não por causa dos dados em si mas porque mudar qualquer crença relacionada com a Bíblia e a natureza da criação, quebrará todo um sistema, uma visão do mundo e, em última análise, a experiência de sobrevivência do seu cérebro.

O que está em causa, portanto, é uma questão de valor da sobrevivência da credibilidade e, perante ela, as evidências negativas são insuficientes para mudar as crenças mesmo em pessoas inteligentes em outros assuntos.

- Em primeiro lugar, os cépticos não devem esperar mudanças de crença simplesmente como resultado dos dados ou pensar que as pessoas são estúpidas porque não mudam de ideias.

Devem evitar tornarem-se críticos ou arrogantes como resposta à resistência à mudança. Os dados são sempre necessários mas raramente suficientes.

- Em segundo lugar, os cépticos devem aprender a nunca ficarem só pelos dados mas discutirem também as implicações que a mudança dessas crenças podem ter na visão do mundo e no sistema de convicções das pessoas envolvidas.

Os cépticos devem acostumar-se a discutir a filosofia fundamental e a ansiedade existencial que se estabelece quando crenças profundas são abaladas.

A tarefa é tão filosófica e psicológica quanto científica.

- Em terceiro lugar, e talvez a mais importante, os cépticos devem perceber quanto difícil é para as pessoas verem as suas convicções abaladas. É, quase literalmente, uma ameaça ao senso de sobrevivência dos seus cérebros.

É perfeitamente normal que as pessoas fiquem na defensiva em situações como essas. O cérebro acha que está lutando pela sua própria vida.

A lição que os cépticos devem aprender é que as pessoas, geralmente, não têm a intenção de serem teimosas, irracionais, nervosas, grosseiras ou estúpidas, quando as suas convicções são ameaçadas.

É uma luta pela sobrevivência e a única maneira de lidar, efectivamente, com esse tipo de comportamento defensivo é amenizar a luta em vez de inflamá-la.

Os cépticos só podem pensar em ganhar a guerra pelas convicções racionais se continuarem, mesmo contra respostas defensivas, mantendo um comportamento digno e respeitoso que demonstre respeito e sabedoria. Para que os argumentos científicos se imponham, os cépticos devem manter sempre o controle e não se irritarem.

- Finalmente, o que deve servir de consolo é que a parte realmente fantástica disto, não é que somente algumas crenças se modifiquem ou que as pessoas sejam tão irracionais, mas sim que as crenças de qualquer um podem modificar-se.

A habilidade que os cépticos demonstraram em alterar as suas próprias convicções a partir das descobertas científicas, constituiu um verdadeiro dom; uma capacidade poderosa, única e preciosa, só possível por uma alta função do cérebro na medida em que vai contra algumas das urgências biológicas mais fundamentais.

Eles possuem uma aptidão que pode ser assustadora, modificadora e que causa dor. Ao projectarem nos outros essa habilidade devem ser cuidadosos e sábios.

As convicções devem ser desafiadas com cuidado e compaixão.

Os cépticos não devem perder de vista os seus objectivos, devem adoptar uma visão de longo prazo, tentarem vencer a guerra pelas crenças racionais, não entrarem numa luta até à morte.

Não são só os dados e os métodos dos cépticos que têm que ser limpos, directos e puros, mas também a sua conduta e comportamento.


(Este texto é da autoria de Gregory W. Lester, Professor de Psicologia da Unversidade de St. Thomas em Houston nos EUA)

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