domingo, janeiro 09, 2011


Hoje é Domingo, um dia ajustado para fazermos a apresentação de Tereza Batista Cansada da Guerra pela mão do próprio Jorge Amado num bilhete que escreveu ao seu editor de sempre a enviar-lhe o original para ser editado.


Querido Martins:

A portadora é Tereza Batista, receba-a com amizade. Acusam-na de arruaceira, atrevida e obstinada, de não respeitar autoridade e de se meter onde não é chamada. Mas tendo com ela convivido longo tempo, praticamente juntos dia e noite de Março a Novembro neste ano de 72, sei de suas boas qualidades. Nasceu para a alegria e lutou contra a tristeza, não esconde o pensamento, gosta de aprender e um pouco aprendeu nas cartilhas, muito na vida. De tão doce e terna, o doutor, homem fino, só a tratava de Tereza Favo-de-Mel.

Comeu do lado podre da vida com fartura e não se desesperou. Cansada de tanto guerrear, um dia pensou-se terminada, resolvendo ensarilhar as armas e nas prendas domésticas se enterrar. Bastou porém soprar a viração do golfo, ouvir o som do búzio no apelo do marujo, para erguer-se inteira e partir a velejar.

Moça de cobre usa dente de ouro e um colar de contas roxas, xale florado sobre os cabelos negros. Dizê-la formosa é dizer pouco, louvar-lhe a competência no ofício não basta para explicar-lhe a sedução. Conto algumas de suas peripécias, desenho-lhe o perfil e me pergunto senão restaram traços obscuros. Saí perguntando a meio mundo e a própria Tereza interroguei. Viver paga a pena e o amor compensa, disse-me ela, nos olhos um fulgor de diamante.

Certa vez lhe mandei, caro Martins, a moça Gabriela, feita de cravo e canela, tirada de uma moda do cacau, por onde anda? O personagem só pertence ao romancista enquanto permanecem os dois na labuta da criação, barro amassado com suor e sangue, com ódio e com amor, embebido em sofrimento, salpicado de alegria. Depois é dos outros, de quem dele se aposse nas páginas do livro e lhe dê um pouco de si, enriquecendo-o. A moça Gabriela, de Ilhéus, anda mundo afora, sei lá em quantas línguas. Tantas, já perdi a conta.

De outra feita em prova de amizade lhe enviei dona Flor, solteira, casada, viúva, depois feliz com seus dois maridos, propondo uma adivinha mágica da Bahia, prisioneira que rompeu as grilhetas da moral corrente e libertou o amor dos preconceitos.

Mansa criatura, quem a diria capaz de agir como ela agiu. De repente surpreendeu-me. Pensava conhecê-la e não a conhecia. É outra cujo destino escapou de minha mão, ainda agora neste Novembro, anda de roupa nova nas ruas de Paris, vestida de francesa por Stock. Com esses gringos fanáticos por mulher bonita, seus dois maridos, Vadinho e doutor Teodoro Madureira correm perigo.

Não há dois sem três, dizem por aqui. Assim sendo, receba agora Tereza Batista para formar o trio. Mulherzinha persistente: me perseguiu durante anos, quis escapar-lhe, meter-me em empresa menos braba, não consegui, ela me teve e durante este ano todo fui seu escravo. Agora você é seu senhor.

Despeço-me dela com saudade, me ensinou a creditar ainda mais na vida e na invencibilidade do povo mesmo quando levado às últimas resistências, quando restam apenas solidão e morte. Na final da história me dei conta que nem tudo é ruim no mundo como a princípio imaginei ao me afundar nos atropelos de Tereza. A maldade quase sempre é miséria ou ignorância. Frase digna do conselheiro Acácio, não a coloco na boca de Tereza. O que houver de bom no livro a ela se deve, o resto é meu, desacertos e limitações, trovador de rima pobre.

Há mais de trinta anos trabalhamos juntos, você e eu, escrevendo e fabricando livros. Eu, parindo gente, você, criando com carinho esse meu povo rude e irredutível. Pois cuide de Tereza Batista e a apresente a Edith.

Vai com recomendação de Zélia e o abraço afectuoso de seu amigo

Jorge

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