sexta-feira, agosto 31, 2012


RAÍZES DA RELIGIÃO (Parte VI)
 (Richard Dawkins)

 Acontece que nós não reparamos nas centenas e milhares de traças que em silêncio e de forma eficaz são guiadas pela lua ou por uma estrela brilhante. Só vemos traças a girar em círculos até embaterem nas nossas velas, e daí, a pergunta errada:

 - «Porque motivo estão todas estas traças a cometerem suicídio?»

Em vez disso devíamos perguntar:

 - «Porque têm elas sistemas nervosos que se guiam mantendo um ângulo fixo em relação aos raios da luz, táctica esta que só reparamos quando corre mal?»

Reformulada a pergunta o mistério desvanece-se. Nunca foi correcto chamar-lhe suicídio. É um subproduto falhado de uma bússola normalmente útil.

Aplique-se, agora, ao comportamento religioso dos humanos a lição acerca do subproduto.

Vemos numerosos grupos de pessoas – que em muitas regiões chega aos 100% - a defenderem crenças, com uma certeza veemente, que contradizem, rotundamente, factos cientificamente demonstráveis, bem como religiões rivais seguidas por outros.

As pessoas, não só nutrem estas crenças com uma certeza veemente, como também dedicam tempo e recursos a actividades dispendiosas delas decorrentes. Morrem por elas, por elas matam.

Pasmamos com o facto, tal como pasmamos com o «comportamento de auto-imolação» das traças. Perplexos, perguntamos porquê e o que eu pretendo dizer é que estamos a fazer a pergunta errada.

O comportamento religioso pode ser um tiro falhado, um subproduto infeliz de uma propensão psicológica subjacente que, noutras circunstâncias, será útil – ou o foi em tempos.

Por este prisma, a propensão que acabou por ser naturalmente seleccionada nos nossos antepassados não era religião “per se”, teria uma outra vantagem qualquer, e só circunstancialmente se manifesta na forma de comportamento religioso.

Só iremos compreender o comportamento religioso depois de lhe darmos um novo nome.

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