sábado, agosto 17, 2013

JUBIABÁ

Episódio Nº 87


Ali quase só mulheres, pálidas e macilentas mulheres de olhos compridos, fabricavam charutos caros para fins de banquetes ministeriais.

Os homens não tinham jeito, possuíam as mãos grossas demais para aquele trabalho que, no entanto, era pesado e difícil.

Na tarde chuvosa do dia da chegada, eles atravessaram de canoa o rio Paraguaçu que separava as cidades. No fundo a ponte enorme. O Gordo ia contando uma história, que o Gordo nascera mesmo para poeta e se soubesse escrever e ler poderia ganhar a vida fazendo A B C e histórias em versos.

Mas o Gordo nunca fora à escola e se contentava em narrar com a sua voz baixa e sonora os casos que ouvia, as velhas lendas que aprendera na cidade, e as histórias que inventava quando bebia.

Se não fosse a sua mania de meter anjos em todas as histórias, ainda seria melhor. Mas o Gordo era muito religioso também.

A canoa evitava as pedras. O rio estava seco e homens de calças arregaçadas e dorsos nus pescavam o jantar. O Gordo ia contando:

 - Então Pedro Malazarte, que era um bicho sabido, disse ao homem: - é um rebanho enorme de porcos… tem mais de quinhentos… que quinhentos que nada… tem mais de mil… dois mil… três mil… de tantos que até já perdi a conta…

 - O homem de panela só via os rabos enterrados na areia. Era um mundo de rabos pretos que o vento remexia. Eles ficava tudo bulindo que nem que tivesse porco mesmo, vivo de verdade, enterrado na areia.

E Pedro Malazarte foi dizendo: - e esses porcos são mágicos… quando eles obra sai é dinheiro. É tudo nota de cinco mil réis… Quando vão crescendo só sai nota de dez e até nota de conto de réis eles bota quando já estão velho. Eu troco tudo isso por sua panela…

 - E o homem não desconfiou? – interrompeu o canoeiro.

 - Nada, o homem era um tolo e estava com os olhos cheios de porcos. Pegou e trocou a panela com carne e feijoada pelo rebanho.

Pedro Malazarte avisou: - Vosmecê deixe eles enterrados até de manhã. De manhã eles sai e vão obrar dinheiro. E o homem ficou esperando que os porcos aparecesse.

Passou a tarde, passou a noite, passou o outro dia e até hoje o homem está lá esperando… Se quiser é só ir ver…

O canoeiro ria. António Balduíno queria agora ouvir a aventura da panela. Amava as histórias de Pedro Malazarte, malandro que sabia enganar os demais e levava uma vidinha gozada.

Imaginava-o vivo, correndo o mundo, sabendo coisas de todos os países, pois até ao céu Pedro Malazarte já fora levar dinheiro para o marido de viúva rica que estava passando miséria num hotel vagabundo do paraíso.

E tinha quase certeza que aquele homem calvo que aparecera na macumba de Jubiabá, não era outro senão Pedro Malazarte, disfarçado. Aquele homem não correra o mundo e não vira todas as coisas?


 - Eu penso na minha cabeça que aquele homem careca que foi na macumba de pai Jubiabá era Pedro Malazarte... 

Site Meter