quarta-feira, maio 07, 2014

Quase tudo quanto dizemos cabe nas fofocas
TEORIA

DOS MEMES







Para melhor compreender a vida e a evolução.

( Richard Dawkins)


Richard Dawkins, defende que para compreender a evolução do homem moderno, devemos abandonar a ideia do gene como sendo a única das nossas fases de evolução e pergunta: afinal, o que são os genes?

A resposta é que eles são replicadores.

As leis da Física são, supostamente, válidas em todo o Universo acessível, mas existirão princípios biológicos susceptíveis de terem, igualmente, validade universal?

O autor não sabe, mas se tivesse que arriscar diria que, a existir, seria uma lei em que toda a vida evolui pela sobrevivência diferencial das entidades replicadoras.

O gene, molécula do ADN, é a entidade replicadora mais comum no nosso planeta mas pode haver outras e se as houver, quase inevitavelmente, tenderão a tornar-se a base do processo evolutivo.

E será preciso ir a outros mundos para encontrar outros tipos de evolução?

Recentemente, outro tipo de replicador surgiu entre nós, ainda está na infância, ainda vagueia desajeitadamente no seu caldo primitivo mas a uma velocidade que deixa muito para trás o velho gene ofegante.

O novo caldo é o caldo da cultura humana e a esse novo replicador vamos chamar “MEME” que será uma unidade de transmissão cultural ou, de uma maneira mais simples, unidade de imitação.

Deve pronunciar-se de forma a rimar com “creme” e está relacionada com “memória”.

Exemplos de “Memes” são: melodias, ideias, lemas, modas de vestuário, maneiras de fazer potes ou de construir arcos, etc.

Tal como os genes que se propagam no pool genético saltando de corpo para corpo através de espermatozóides ou de óvulos, também os memes se propagam no pool memético, saltando de cérebro para cérebro através de um processo que, em sentido lato, se pode chamar de imitação.

Alguns “memes”, tal como alguns genes, atingem um sucesso brilhante espalhando-se rapidamente mas não duram muito tempo.

Todas as pessoas do meu tempo, e mesmo mais novas, lembram-se das calças à boca-de-sino, dos sapatos com tacões altos ou de certas canções populares que depressa passaram de moda.

Em contrapartida, outros, tais como as leis religiosas judaicas, poderão continuar a propagar-se durante milhares de anos devido à grande duração potencial dos registos escritos, e isto conduz-nos a uma das qualidades dos replicadores bem sucedidos: a fidelidade de cópia e, quanto a esta qualidade, os “memes” não são replicadores de grande fidelidade.

O gene foi definido como uma extensão de um cromossoma com uma fidelidade de cópia suficiente para servir como uma unidade viável de selecção natural.

Se uma única frase da Nona Sinfonia de Beethoven for suficientemente distinta e memorável para ser abstraída do contexto de toda a Sinfonia e usada como tema de abertura de uma estação radiofónica então, ela merece ser considerada um “meme”.

Pensemos na Teoria de Darwin. A circunstância dos biólogos acreditarem nesta teoria não significa que cada um deles tenha gravado na sua memória as palavras exactas do próprio Charles Darwin.

Cada um deles tem a sua própria maneira de interpretar as ideias de Darwin porque as aprenderam, não a partir dos trabalhos do próprio Darwin, mas de autores mais recentes.

Mais, muito daquilo que Darwin disse, em detalhe, está errado e se ele lesse o livro do Gene Egoísta de Richard Dawkins não reconheceria nele a sua própria teoria original, mas há qualquer coisa, uma qualquer essência de Darwinismo, que está presente na cabeça de cada indivíduo que compreende a sua teoria e só assim se entende que duas pessoas concordem entre si sobre um qualquer assunto.

Há, portanto, um “meme ideia” que pode ser definido como uma entidade capaz de ser transmitida de um cérebro para outro e o que se pode perguntar é, se à semelhança dos genes que têm de competir com os seus alelos rivais para a mesma fenda cromossómica, também os “memes” têm os seus rivais e se deles se pode esperar que sejam egoístas.

A resposta é sim, porque há um sentido em que eles têm de se entregar a uma forma de competição entre si.

Na verdade, se um “meme” dominar a atenção de um cérebro tem de o fazer à custa de outros “memes” rivais pois ele, o cérebro, está limitado na sua capacidade e não pode fazer mais que uma ou duas coisas ao mesmo tempo.

Outras coisas pelas quais os “memes” competem são o tempo de antena na rádio, na televisão, espaços publicitários, colunas de jornais e espaço nas estantes das bibliotecas.

Dentro do paralelismo que estabelecemos entre os novos “memes”e os velhos genes, recordemos que genes associados podem unir-se no mesmo cromossoma de uma forma tão forte que pode ser considerado um gene.

Acontece isto com o mimetismo das borboletas ou ainda, de uma forma mais sofisticada, com dentes, órgãos dos sentidos, todos eles mutuamente adaptados e que evoluíram nas “pools” de genes dos herbívoros.

Acontecerá algo de análogo nos “pools” de “memes”?

Por exemplo, o “meme” para Deus estará associado a outros “memes” particulares e será essa associação promotora da sobrevivência de cada um desses “memes” participantes?

Talvez possamos considerar que uma igreja organizada, com a sua arquitectura, rituais, leis, música, arte e tradição escrita se constituam como um conjunto estável, co-adaptado, de “memes” que se promoveriam mutuamente.

Dando um exemplo particular, um aspecto da doutrina que tem sido muito eficiente em compelir à observância religiosa é a ameaça do fogo do inferno.

Muitas crianças, e mesmo adultos, acreditam que sofrerão tormentos horríveis depois de morrer senão obedecerem às recomendações dos sacerdotes. É uma técnica de persuasão particularmente sórdida, causadora de angústia psicológica e que vem dos tempos da Idade Média mas que ainda hoje se mantém.

Quanto à responsabilidade desta técnica condenável, Richard Dawkins concede aos sacerdotes o benefício da dúvida por não lhes reconhecer inteligência suficiente e admite, em alternativa, que possam ser “memes” inconscientes que asseguraram a sua própria sobrevivência graças às mesmas qualidades de pseudo-implacabilidade que os genes bem sucedidos exibem.

A ideia do fogo infernal é, muito simplesmente, autoperpectuadora devido ao seu enorme impacto psicológico profundo. Ligou-se ao “meme” para Deus porque as duas se reforçam mutuamente e favorecem a sobrevivência uma da outra no “pool” de “memes”.

Outro membro do complexo de “memes” religioso é a fé que significa uma confiança cega na ausência de evidência, ou mesmo apesar dela.

A história de S. Tomé, “do ver para crer”é contada, não para que o admiremos a ele mas, por comparação, possamos admirar os outros apóstolos que não precisavam de provas e são estes que nos são apresentados como exemplo.

Nada pode ser mais letal para certos tipos de “memes” do que a tendência para procurar evidências.

O “meme” para a fé cega assegura a sua própria perpetuação pelo simples recurso inconsciente ao desencorajamento da investigação racional.

A fé cega pode justificar tudo. Se um homem acredita num deus diferente, ou mesmo se usa um ritual diferente para adorar o mesmo deus, a fé cega pode decretar que ele morra: na cruz, na fogueira, trespassado pela espada de um cruzado, atingido por uma bala numa rua de Beirute ou por uma explosão num Bar de Belfast.

Os “memes” para a fé cega têm as suas próprias maneiras implacáveis de se propagar e isto é tão verdade para a fé religiosa como para a patriótica ou política.

Os “memes” e os genes, podem, muitas vezes, reforçarem-se mutuamente, mas em certas ocasiões opõem-se.

Por exemplo, o hábito do celibato supõe-se que não seja herdado geneticamente porque o seu gene estaria condenado a malograr-se no “pool” de genes, exceptuando circunstâncias muito especiais com aquelas que encontramos nos insectos sociais, mas, ao contrário, pode ser bem sucedido no “pool” de “memes”.

Suponhamos, por exemplo, que o sucesso de um “meme” depende, de forma crucial, da quantidade de tempo que as pessoas gastam a transmiti-lo activamente a outras pessoas pelo que, o tempo gasto a fazer outras coisas que não seja transmitir o “meme” poderá ser considerado desperdício de tempo do ponto de vista do “meme”.

O “meme” para o celibato é transmitido por sacerdotes a rapazes jovens que ainda não decidiram o que fazer com as suas vidas e o meio utilizado para o fazer é a palavra escrita, falada, o exemplo pessoal e por aí adiante.

Suponhamos, agora, que o casamento enfraquecia o poder de um padre para influenciar o seu rebanho, e esta tem sido a razão oficial apresentada para obrigar ao celibato dos padres, então, o celibato é apenas um componente secundário do grande complexo de “memes” religiosos que se promovem mutuamente.

Pode parecer que tudo é negativo em relação aos “memes” mas eles também têm o seu lado positivo:

- Quando morrermos há duas cosias que deixamos atrás de nós: genes e memes. Fomos construídos como máquinas genéticas criadas para transmitir os nossos genes mas esta finalidade será esquecida ao fim de poucas gerações.

Os meus filhos e os meus netos poderão ter alguma parecença comigo, na cor dos olhos ou do cabelo, nos traços faciais, no talento musical, ou na habilidade para jogar futebol, mas essa herança, a cada geração, vai reduzindo-se até proporções desprezíveis porque, embora os genes possam ser imortais, a colecção de genes que constitui cada um de nós está condenada a dissipar-se.

A Rainha de Inglaterra II descende directamente de Guilherme O Conquistador mas, muito provavelmente, já não possuirá nem um dos genes do velho rei, logo, não é através da reprodução que se alcança a eternidade.

Mas, se algum de nós tiver um contributo válido para o património cultural, seja uma ideia, uma melodia, um poema, poderá sobreviver intacto muito para além dos seus genes se terem dissolvido na “pool” comum de genes.

É possível que Sócrates ainda tenha para aí, no mundo de hoje, um gene ou dois mas, como diz George Cristopher Williams, emérito Professor de Biologia da Universidade de Nova York, que interesse tem isso?

Em contrapartida, os complexos de “memes” de Sócrates, Leonardo, Copérnico, Marconi, e tantos outros ainda vigoram com sucesso.

Por mais especulativo que possa ser considerado o desenvolvimento da teoria dos Memes de Richard Dawkins há um ponto sério que deve ser realçado:

- Quando se observa a evolução dos traços culturais e a sua capacidade de sobrevivência, há que saber, com precisão, de “quem” é a “sobrevivência” de que estamos a falar.

Os biólogos têm o hábito de procurar vantagens ao nível do gene (ou ao nível do indivíduo, do grupo, ou da espécie, conforme o gosto), mas o que ainda não tinha sido considerado antes é que um traço cultural possa ter evoluído simplesmente porque é “vantajoso para si próprio”.

Não é preciso procurar capacidades convencionais de sobrevivência biológica em aspectos como a religião, a música ou as danças rituais, embora tal se possa verificar logo que os genes dotem as suas máquinas de sobrevivência para a imitação rápida.

Basta que o cérebro seja “capaz” de imitação, logo evoluirão “memes” que irão explorar plenamente essa capacidade.

Uma característica do homem que poderá ter evoluído ou não “meméticamente” é a sua capacidade de previsão consciente e esta capacidade está vedada aos genes egoístas e aos memes (se for permitida esta especulação) porque eles são replicadores inconscientes e cegos.

Outra qualidade, também exclusiva do homem é a sua capacidade para o altruísmo verdadeiro, genuíno e desinteressado e, portanto, mesmo que olhemos para o seu lado sombrio e assumamos o pressuposto de que o homem é, basicamente egoísta, a nossa capacidade de antecipação consciente e para simular o futuro usando a imaginação, poderá salvar-nos dos piores excessos egoístas dos replicadores cegos.

Temos o poder de desafiar os genes egoístas que herdamos e, se necessário, os “memes” que nos foram transmitidos.

Podemos até discutir maneiras de estimular e ensinar deliberadamente o altruísmo puro e desinteressado que é algo que nunca existiu na natureza nem na história do mundo.

Somos construídos como máquinas de genes e educados como máquinas de “memes”, mas temos o poder de nos rebelar contra os nossos criadores.

Só nós, na Terra, temos esse poder.


Se leu este resumo sobre a Teoria dos Memes de Richar Dawkins ouça, agora, sobre esta mesma Teoria, a Dr.ª Susan Blackmore, autora da obra The Evolution of Meme Machines e que, como pode certificar-se, é uma adepta entusiasta desta Teoria.

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