quarta-feira, julho 23, 2014

Seu pai sabe o que faz...
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 8


















 - Assim ou assado - prosseguiu o estudante após montar e ganhar a estrada -  como chefe político, Elias está liquidado. A sorte dele foi estar tratando com o Velho que tem o coração mole.

Se fosse eu, tinha acabado de vez com esse canalha: arrasava a fazenda dele, punha fogo nas roças, deixava ele de cuia na mão, pedindo esmola. Mas Pai ficou com pena, afrouxou.

Você não acha que o Velho devia ter ido até o fim, ter aproveitado a ocasião?

Natário não alterou a voz, conhecia os repentes do rapaz:

 - Possa ser que sim, possa ser que não. Mas se tu pensa que o Coronel não acabou com ele por moleza, tu tá enganado: foi
moleza não, foi sabedoria. Nós tamos precisados de paz para derrubar a mata e plantar a terra; é muito chão, Venturinha.

Se o coronel Boaventura pusesse fogo nas roças do coronel Elias, hoje a gente tava brigando com meio mundo numa guerra de morte.

Queimar cacau é o mesmo que queimar dinheiro vivo, esse tempo já passou. Seu pai sabe o que faz, é por isso que está por cima, mandando.

 Na hora de guerrear, não vacilou, não quis saber de conchavo. Mas a gente só deve brigar quando não encontra jeito de viver em paz.

 - Logo você é quem me diz isso? Você que passou a vida com o dedo no gatilho? O Natário do coronel Boaventura?

Natário sorriu, os olhos miúdos quase fecharam:

 - Tu tá pra sair da Faculdade, doutor formado, mas tu ainda
tem muito que aprender. Cada hora tem sua serventia: hora de tiro, hora de caxixe.

 O Coronel quer que tu seja o mediador com o pessoal de Itabuna. Me disse: “Venturinha está carecendo começar a se desasnar.

Dessa vez é ele quem vai resolver tudo, quero ver como se sai.” Tu precisa não esquecer que todo mundo em Itabuna
lia pela cartilha do coronel Elias, um é compadre, outro é afilhado dele; tem gente que só aceitou recolher os paus furados porque ele mandou. Lá, tu não vai falar em tocar fogo nas roças do coronel Elias, senão tu bota tudo a perder. Tu é esquentado demais, deixa o calor pra gastar com as moças...

— Por falar em moça, Natário, nem lhe conto... — Começou
a contar.

Natário não explicou que o Coronel decidira mandar o filho,
em lugar de ir pessoalmente, porque o mais difícil já estava resolvido, os pontos principais do acordo definidos e assentados.

As medições seriam registadas, a eleição anulada, escolheriam novo prazo e novo candidato. Aliás, talvez o candidato viesse a ser o mesmo advogadozinho protegido do Governador. O Coronel pilheriava com Natário, comentando as possíveis candidaturas:

- Não quer ser Intendente de Itabuna, Natário? — Ria da
idéia estapafúrdia.

Natário não ria, a voz mansa:

 - De Itabuna, não quero não senhor. Quem menos manda em Itabuna é o Intendente; ontem, mandava o coronel Elias, hoje, manda vosmicê. Quando eu governar um lugar, nem que seja o derradeiro buraco do mundo, quem vai mandar nele sou eu. Eu e mais ninguém.


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