sexta-feira, setembro 19, 2014

Nos lábios o sorriso inteiro
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 55



















Na cama, vez por outra, destrambelhava: talvez por isso mesmo apenas estranhos a escolhiam; os conhecidos somente em último recurso iam com ela. Atracada ao parceiro dizia coisas ininteligíveis, desmanchava-se em pranto, ria às gargalhadas, recusava a paga. Como se, de súbito, houvesse reencontrado perdido xodó.

Como se o desconhecido freguês fosse pessoa sua, marido ou amásio, e ela própria fosse outra, não a mansa Maria Gina que entrava mata adentro, e, quando todos pensavam ter-se perdido para sempre, regressava vestida de folhagens e de flores. Mansa, não fazia mal a ninguém.

Na noite dos ciganos, caminhando sobre o tapete de luar, Marta Gina cumpria seu destino da mesma maneira que a corte real da Babilónia. Nos lábios o sorriso inteiro.

De longe podia-se reconhecer quem vinha vindo: a lua se derramava nos caminhos, o negrume da noite fora extinto.

Não de todo, no entanto, pois vivente algum soube explicar nos limites de Tocaia Grande o sumiço do cigano Miguel, dos quatro trapaceiros o mais moço, e de Guta, enrabichada e atrevida.

 Em que esconderijo, em que escuridão haviam se metido?

O último a vê-los foi Dudu Tramela à meia distância entre o depósito de cacau e a venda de Fadul. Iam abraçados, tão fora do mundo que passaram perto dele sem notar a presença do moleque apesar da claridade.

 - Valha-me Deus! - Murmurou o falastrão pensando no que poderia acontecer quando o casal chegasse à palhoça da rapariga onde Dorindo devia estar à espera, impaciente.

Maluco por Guta, Dorindo comia fogo, vomitava enxofre. Mas, pelo visto, os namorados não se dirigiram à palhoça e contra a perspectiva de Dudu o encontro não se deu naquela hora.

Igual ao que se passou com Maria Gina, desapareceram nas dobras do luar enquanto o velho Josef tomava o rumo do descampado indo ao encontro dos tropeiros a fim de mercadejar quinquilharias e cavalos. Uma surda cantoria de sapos celebrava a lua cheia.

Para ler a sorte das mulheres, quanto mais idosa e bruxa a quiromante, mais acreditada. Para tomar, porém, da mão dos homens, medir com a unha a linha do destino, olhar nos olhos do freguês ao falar de paixão desesperada, a cigana deve ser jovem e atraente, promessa e tentação no ciciar da voz.

Quando a velha Júlia, uma harpia curvada pela idade, desembocou no rancho dos tropeiros propondo-se a lhes revelar o ontem e o amanhã, Maninho, ocupado em chamuscar a carne seca, gracejou com seu segundo:


- Cachorrão, chegou a cigana que ocê tava esperando...

- Essa, nem de graça -  Rosnou Valério Cachorrão.

Mas entregou a mão a Malena assim a diaba apareceu na sombra de Josef, ele oferecendo animais de raça para venda e troca, para qualquer negócio, ela transando vaticínios. Apenas vaticínios?

Valério Cachorrão, traquejado, achou que Malena estava sugerindo muito mais: tinha razão para assim pensar e agir em consequência pois outra coisa não fizera a disgramada além de fretar-se com o maior descaramento.

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