quinta-feira, setembro 11, 2014

Pra quê? Para negociar mais adiante...
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 49


















Logo se refez, porém, e num movimento rápido colocou sobre o balcão um pequeno embrulho de papel pardo: de onde o extraíra sem que Fadul se desse conta?

 - Pois, então, veja e me diga se Vossência tem disso em seu sortimento.

Desdobrou o papel deixando à mostra um relicário preso a uma corrente. O turco conteve com esforço a exclamação que lhe veio à boca e com esforço desviou os olhos. Josef proclamou:

 - Nem em Ilhéus se encontra igual.

Segurando a corrente na ponta dos dedos, elevou o relicário à altura dos olhos do comerciante: o sol faiscava nas ranhuras valorizando a jóia.

 - Que me diz Vossência?

Não adiantou Fadul demonstrar indiferença, Josef constatara o interesse despertado na maneira como o mascate estendeu a mão para segurar o relicário, no cuidado com que o recolheu: jóia concebida no tamanho exacto para a vertente de um colo de mulher.

- Veja que presente para Vossência dar à sua patroa. Ouro maciço. Preste atenção no acabamento.

 - Não sou casado. Nem tenho rapariga. - Nenhuma rapariga, nem mesmo Zezinha do Butiá, valia tal regalo.

Não desmereceu a peça, não a disse falsa nem feia. Mascate veterano, experiente no trato dos metais, Fadul sabia distinguir e avaliar. Pela corrente não daria nada, uma pinóia.

O relicário porém era ouro de lei, peça de alto preço, roubada com certeza. Abriu-o para examinar o interior, sopesou-a na mão. Não a desmereceu mas negou-lhe serventia:

 - Não quero nem saber se é deveras ouro. Não tenho a quem dar nem o que fazer com essa jóia. Pra mim não vale nada. Pra que me serve?

- Pra quê? Pra negociar mais adiante, ganhar dinheiro. Vossência está brincando, sabe que é ouro e do bom.

Dependendo do preço, poderia ser um negócio de primeira: jóia para vender em Itabuna ou em Ilhéus por um dinheirão.

Mas Fadul manteve-se nas encolhas, não abriu o jogo. Depositou a prenda no balcão, balançou a cabeça, suspendeu os ombros dando a questão por encerrada. Não tinha pressa.

Nem ele nem o cigano que, indiferente aos gestos negativos do turco, observava o caminho por onde um homem se aproximava, um habitante do lugar.

Fadul também o enxergou, tratava-se do carpina Lupiscínio. Sobre o balcão sebento, entre Josef e Fadul, o osculatório reluzia. Josef esperou que Lupiscínio entrasse e desse boas-tardes para voltar a levantar a corrente e exibir o esplendor do relicário:

- Peça parecida com essa Vossência não encontra nem em Ilhéus nem na Bahia. Veio da Europa com meus avós, recebi de herança. 

- Para comprovar a afirmação pronunciou uma frase na língua de seu povo mas voltou a falar português ao dirigir-se a Lupiscínio:

  - Que acha o cavalheiro?

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