segunda-feira, março 09, 2015

Uma praga, essa mania de viver no Rio
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 192


















Completavam a relação dois advogados expertos em caxixes e o velho padre Afonso, de apetite e sede celebrados, a idade não lhe aplacara a gula.

Políticos, magistrados, bacharéis e o padre-mestre comiam na mão do Coronel, apoiavam calorosamente o louvor do excapanga.

Mas somente os fazendeiros, os coronéis, eram seus iguais: sabiam o porquê das coisas, conheciam o exacto valor da  lealdade, o preço da vida e da morte, entendiam as razões das alabanças.

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Almoço duplamente festivo, todos se davam conta. Comemorando a data natalícia da santa e adiposa senhora e a presença à mesa do filho único do casal, o doutor Boaventura da Costa Andrade Júnior - Andrade Filho na obstinação do Coronel - quando estudante de Direito na Bahia mais conhecido na Faculdade e nos castelos por Venturinha, o Venturoso.

Viera do Rio de Janeiro para onde seguira em curta viagem de prazer após a formatura e onde se instalara havia mais de cinco anos com raras e rápidas visitas a Ilhéus.

Uma praga essa mania de viver no Rio de Janeiro: os moços grapiúnas perdiam a cabeça, abandonavam a terra e a família como se não tivessem obrigações a cumprir, tampouco amor aos pais.

O moço Medauar, esse ao menos assinava artigos e versos nas gazetas, profissão de duvidosa renda mas de lustre e estimação. “Poemas do Amor Amante”, assim se intitulava a brochura que o gringo Emilio conduzia debaixo do sovaco para ostentar nas casas e fazendas dos amigos, no balcão da loja, nos bares, nas pensões de putas.

O bacharel Andrade, Júnior ou Filho, não publicara livro nem escrevia nos jornais; acumulava cursos, um atrás do outro: o Coronel se cansara de alardear diplomas.

 Pendiam inúteis nas paredes do escritório em Itabuna, fechado, virgem até aquela data dos vastíssimos e caríssimos conhecimentos do advogado.

O Coronel não tinha sequer ânimo para anunciar em Ilhéus e em Itabuna os novos títulos obtidos pelo eterno estudante.

Eterno ou crónico? Qual dos dois adjetivos empregara o zombeteiro Fuad Karan para definir a profissão de Venturinha?

 Ou o proclamara vitalício? Na frente do Coronel, louvores irrestritos à paixão do bacharel pelos estudos; por detrás a risota, o menoscabo.

Desistira de lutar para tê-lo junto a si, transformando finalmente em realidade antigos planos, arquivadas ambições, cumprindo o destino brilhante que para ele sonhara e decidira.

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