sexta-feira, maio 22, 2015

Dêcá o pé, meu louro.
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)

Episódio Nº 250


















O Capitão punha-o de costas na palma da mão e lhe coçava a cabeça e a barriga, Vá-Tomar-no-Cu fechava os olhos, deleitado, entregue. Devia ser fêmea para assim se deixar manusear, garantia Zilda.

Fêmea e fiel, pois apenas a Natário permitia tais intimidades; bicava, feroz, qualquer outra pessoa que a quisesse agradar e a insultava: Ladrão! Filho da puta! Vá tomar no cu! Quase arranca o dedo do negro Tição que tentara fazer amizade: decá o pé, meu louro.

O contundente vocabulário da maracanã resultava de prolongada vivência na fumacenta sala de jogo de uma espelunca no Beco da Mula em Itabuna, a freqüentada Pensão das Nuvens.

Misto de tasca onde serviam cachaça, conhaque e rabos-de-galo, de puteiro - em cubículos no sótão oficiavam raparigas – sobretudo antro de jogatina, esse complexo recreativo era explorado por Luiz Preto, um paladino, por vezes incompreendido e injustiçado, do ócio com dignidade.

 O Capitão salvara-lhe a vida por ocasião de um fecha-e-quebra de baralho. Encontrava-se por acaso no local a convite de uma quenga, sua conhecida de tempos passados: de hoje não lhe vejo, Natário, dissera a dengosa ao encontrá-lo na rua.

De reminiscência em reminiscência, acabaram nos altos da Pensão das Nuvens para comemorar o encontro e matar saudades a golpes de estrovenga.

Natário abotoava as calças, iniciando as despedidas, quando a barulheira de mesas e cadeiras viradas e os gritos entusiásticos de um papagaio - Ladrão de merda! Xibungo! -chamaram-lhe a atenção.

 A dama, ainda nua, não se alterou, xingos e desordens aconteciam com bastante freqüência no influído comungatório.

Mas como o cu-de-boi prosseguisse com ameaças de morte - vou te arrancar as tripas, cachorro! - e tendo o Capitão reconhecido a voz de Lalau, jagunço que já servira às suas ordens, cidadão de peito e de palavra, precipitou-se a tempo de impedir o envio de Luiz Preto para a terra dos pés juntos: o punhal de Lalau alumiava na fumaceira.

Restabelecida a ordem, arrumadas mesas e cadeiras, reiniciada a batota, Natário demorou-se a provocar a maracanã e chegou a desatar numa gaitada - coisa tão rara em seu proceder - ao ouvir o louro ordenar-lhe: vá tomar no cu, enquanto piscava o olho e sacudia alegremente as asas verdes e vermelhas.

Grato, Luiz Preto mandou deixar a ave na pensão de tia Senhorinha onde o Capitão se hospedava em Itabuna: presente de um ressuscitado.

Na Fazenda da Atalaia, Vá-Tomar-no-Cu aprendera a assobiar para os cachorros, a pipiar para as galinhas, a imitar a voz do negro Espiridião: paz e saúde, comadre Zilda! Em Tocaia Grande, o Turco Fadul ensinara-lhe palavrões em árabe: manhúk, ru-h inták, ibam, charmuta: a maracanã os repetia com límpida pronúncia das montanhas do Líbano.

Na mesa farta do almoço, em casa do Capitão, Fadul, conviva frequente, ria a morrer com os xingos, em português e em árabe, de Vá-Tomar-no-Cu. Nunca conseguiu, porém, por mais tentasse, coçar-lhe a cabeça, muito menos a barriga. Privilégios do capitão Natário da Fonseca.

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