terça-feira, julho 21, 2015

Assim Nasceu 

Portugal

(Domingos Amaral)


Episódio Nº 21














Afonso Henriques recuou, rastejando, mas ela dobrou o joelho, pousou-o no chão e apontou-lhe a faca, ameaçando-o:

- Vou furar-vos a barriga, cristãozinho!

Nesse momento ouviu-se o autoritário grito de Zulmira:

 - Fátima!

A rapariga olhou para a mãe, que se aproximara, tensa e aflita. Pelo canto do olho, viu também que, descendo pelas escadas de madeira, aparecera uma comitiva de três pessoas.

Á frente vinha Dona Teresa, altiva e bela, envolta num manto escarlate. Acompanhava-a o marido, Bermudo, bem como o irmão mais novo deste, Fernão Peres de Trava, ambos com capas galegas de cor esverdeada sobre os ombros.

Surpreendidos, olhavam para a celeuma entre as crianças.

- Afonso é o príncipe, não lhe podeis fazer mal – murmurou Zaida.

Fátima mirou Afonso Henriques e sorriu com desprezo:

- Fica para a outra vez.

Levantou-se enquanto Dona Teresa e os irmãos Trava se acercavam.

Radiosa, com os seus longos cabelos morenos apanhados por uma pequena touca que lhe moldava a cabeça, e o olhar vivo e alegre de quem recebera boas notícias, Dona Teresa ficou, porém, imediatamente desinteressada dos catraios quando passou por Zulmira e parou a olhar para ela.

Confundida, franziu o sobrolho e perguntou:

 - Quem sois vós?

Zulmira explicou-se: era esposa de Taxfin, governador de Córdova, um dos comandantes das tropas do califa, e ficara prisioneira no ano anterior, aquando do primeiro cerco a Coimbra, juntamente com suas filhas.

Dona Teresa parecia procurar na memória aquele rosto,, associando-o a algum local, algum acontecimento passado. Todavia, não a deve ter conseguido identificar, pois interrogou-a.

 - Já nos conhecemos?

Zulmira negou apressadamente. As três mouras tinham permanecido em Coimbra durante esse ano, enquanto dona Teresa viajara por Braga, Viseu e Tui. E, nas últimas semanas, a rainha estivera ocupada com afazeres militares e raramente passeava pela cidade.


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