quarta-feira, agosto 19, 2015

Espiridão vai querer uma cachacinha...
TOCAIA GRANDE
(Jorge Amado)


Episódio Nº 315


















Professora diplomada, esforçava-se por alfabetizar meninos na pequena escola de Taquaras. Usava óculos, não se casara, criava passarinhos.

O negro Espiridião tinha pela filha verdadeira veneração, tratava-a com cerimónia, só faltava chamá-la de senhora e quando se referia ao seu nome acrescentava os títulos: minha filha, a professora dona Antônia.

Espiridião sentado no degrau da varanda, Natário na ponta do banco, entre os dois cabras o Coronel refletia sobre a vida, a velhice e as poucas alegrias que lhe restavam.

Da cozinha chegava a voz de Sacramento entoando modinha brejeira:

Azulão é pássaro preto
Rouxinol cor de canela
Quem tem seu amor de frente
Faz ronda, faz sentinela.


Venturinha folgava no Rio de Janeiro, esbanjando. Dona Ernestina, sua santa esposa, rezava e fazia promessas em Ilhéus; Adriana, sua rapariga, em vias também de santidade, não saía das sessões espíritas; esposa e amásia, cada uma com suas mazelas e devoções: o seu povo, o lado rico.

Na fazenda, onde se demorava sempre mais, Natário, Espiridião, Sacramento, também gente dele, o outro lado.

Para que não morresse solitário, a vida lhe dera a moça Sacramento. Pena tivesse tardado tanto.

Sacramento silenciou a cantiga, apareceu na varanda com o bule de café acabado de passar, quente e oloroso. Enquanto o sorvia em pequenos goles, soprando na xícara, o Coronel pigarreou e disse:

 - Espiridião vai querer uma cachacinha...

 - Só ele? - Brincou a moça, familiar dos hábitos do fazendeiro.

- Acho que Natário é bem capaz de aceitar. Que me diz, compadre?

 - Se for para acompanhar vosmicê, aceito com prazer.

O Coronel riu confortado, sentia-se entre os seus. A simples presença da moça, igual a visão das roças de cacau, aquecia-lhe o coração. Sacramento recolheu as xícaras, voltou com a garrafa e os copos.

Copos de pé, cálices finos e frágeis, neles não cabia mais do que uma gota de cachaça.

Quando Sacramento se debruçou para servir, o Coronel enxergou, no vão do decote da bata, a curva e o volume dos seios e os sentiu contra as costas da mão, levantada de propósito.

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