sexta-feira, março 18, 2016

Assim Nasceu Portugal
(Domingos Amaral)

Episódio Nº 216


















Guimarães, 24 de Junho de 1128





Durante uma batalha os intervenientes raramente percebem o que se está a passar noutros locais, tomando por isso decisões imperfeitas, que mais tarde se podem revelar dramáticas.

Paio Soares, por exemplo, confiou que o príncipe se ia render e deixou-o partir, mas não soube que os nobres portucalenses o tinham convencido a regressar à luta.

Por isso, decidiu ficar no local onde estava, esperando que os seus homens tresmalhados, ainda a guerrear com o Lidador e com Gonçalo de Sousa, se viessem reunir a ele.

Contudo, tal não aconteceu. A maioria deles, cerca de quatrocentos, dispersara. Muitos estavam moribundos, feridos e incapacitados, e os outros fugiram, recuando desordenadamente na direcção do acampamento de Dona Teresa.

Os que rodeavam Paio Soares, ainda cerca de seiscentos, esperavam pela nossa rendição, sem saber que, entretanto, Afonso Henriques reorganizara as suas tropas e se juntara ao meu contingente.

Aos meus quinhentos homens iniciais, praticamente intactos, somavam-se agora quase novecentos do príncipe de Portugal, o que nos deu uma supremacia gigantesca sobre Bermudo de Trava.

Carregámos sobre os galegos, e em meia hora derrotámo-los totalmente, fazendo prisioneiro Bermudo e vários ricos-homens da Galiza. Depois dirigimo-nos para o centro do campo de Ataca.

O estandarte de Afonso Henrique voltou a esvoaçar, e reparei que trazia na mão direita a espada de seu pai, enorme e brilhando ao sol.

Um pouco antes, o Trava cometera também um erro grave. Olhara para a sua direita e não vira Paio Soares que avançara de mais e estava parado.

À esquerda, não vira o irmão Bermudo, que estava cercado e em frente não vira igualmente ninguém, pois as tropas de Afonso Henriques haviam-se deslocado.

Tendo-lhe chegado a informação de que a rendição de Afonso Henriques estava próxima, o Trava mandara então recuar os seus arqueiros e cavaleiros, o que os distraiu fatalmente.

Ao mesmo tempo que esse movimento se dava, o Lidador e Gonçalo de Sousa, depois da confusão inicial, tinham reagrupado os seus homens. De seguida haviam tomado decisão igual à de Afonso Henriques, marchando para o centro do campo de Ataca a fim de enfrentar o Trava.

Os dois grupos de portucalenses encontraram-se, juntando-se em redor do meu melhor amigo. Eu e o Lidador, rapidamente avaliámos a situação.

Os portucalenses contavam ainda com cerca de mil e oitocentos homens e estavam precisamente no meio dos adversários, tendo Paio Soares na retaguarda, com apenas seiscentos homens, e Fernão Peres de Trava na frente, com os seus mil e quinhentos claramente desinteressados da batalha.

- O Trava pensa que nos vamos render – concluí.

Da mesma opinião o Lidador propôs de imediato:

 - Temos de atacar já! Para a frente e para trás ao mesmo tempo!

A sua ideia podia parecer descabida, pois encontrávamo-os entre dois exércitos inimigos, mas aprovei-a, acrescentando que tanto o Trava como Paio Soares seriam surpreendidos.

Sugeri uma divisão de forças: Afonso Henriques e Gonçalo de Sousa com metade dos homens, atacariam Paio Soares, virando-se para trás; eu e Gonçalo Mendes da Maia cavalgaríamos para a frente, contra o Trava.

Eles são mais mas não estão à espera disto! exclamou o Lidador.

Mal as ordens foram dadas, gerou-se uma certa confusão entre os homens, pois não sabiam quais deles iam para a frente e quais iam para trás. Mas passada a barafunda os dois grupos partiram à desfilada, os cavaleiros com as suas lanças em riste, os peões ao lado a correrem, e os arqueiros na retaguarda, preparando as suas flechas.

A cerca de duzentos metros das tropas do Trava, os arqueiros puseram os joelhos no chão e dispararam várias salvas, causando muitos danos aos seus adversários, sobretudo porque estes não os esperavam.

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