terça-feira, janeiro 26, 2016

Vivo morrendo por você, Tieta
Tieta do Agreste
(Jorge Amado)

EPISÒDIO Nº 62
















A Generala se empanturra, ouvindo, sem prestar atenção, a conversa de Barbozinha que se declara cozinheiro de mão cheia; não existe aliás profissão que ele não conheça a fundo, tendo-as exercido todas à perfeição.

Tieta aprova com a cabeça ou com monossílabos, enquanto constata alarmada como está engordando, daqui a dias não caberá nos vestidos.

Quisera ter a natureza de Leonora que não engorda. Passou tanta necessidade, ficou magra para o resto da vida. Procura a enteada com os olhos. Lá está ela, na varanda, derretida ao lado de Ascânio.

Cabrita sofrida e direita, ninguém merece tanto ser feliz. Terá Ascânio tamanha competência? Tieta não crê. Mesmo se ele quisesse, em Agreste seria impossível.

Dona Milú e dona Carmosina vêm juntar-se ao poeta:

- Nunca vi ninguém tão apaixonado como está Ascânio. – Dona Carmosina não tem outro assunto. – Você acredita que Leonora corresponda?

- Não sei… ela sofreu muito, já lhe contei, Carmô. Teve um noivo que só queria avançar no dinheiro dela, dona Milú. Foi uma decepção muito grande, até hoje está marcada.

Barbozinha confia na força do amor:

- Ninguém morre de amor, de amor se vive.

- Sem vergonha! Depois vem dizer que já morreu de amor por mim não sei quantas vezes. Também encarna e desencarna com a maior facilidade.

- Vivo morrendo por você, Tieta. Se você lesse meus versos, saberia.

- Seu Barbozinha ainda é melhor na mentira do que na rima. Mentiroso não tem igual por esta redondeza – afirma dona Milú e muda de assunto.

-E a casa Tieta, já achou outra, a seu gosto?

Todos a par da surpreendente alta ocorrida no preço dos imóveis com a chegada das paulistas ricas.

- Uma descaração! Como se eu fosse realmente paulista, não tivesse nascido e me criado aqui, uma exploração. Mas, se dona Zulmira reduzir o preço, acabo comprando, é uma casa como eu quero. As outras que corri, nenhuma me agradou.

Saem tarde do jantar. Ascânio as acompanha até à porta de casa. Perpétua morta de sono, habitualmente dorme às nove da noite, às seis da manhã firme na Igreja para a missa. 

Leonora, nas nuvens, sorriso abobado, olhar de quebranto, cabrita tola. Tieta sacode os ombros, no fundo não tem muita importância, não se morre de amor, de amor se vive; Barbozinha tem razão, alguém disse que os poetas têm sempre razão.

Tendo passado o que passou, o namoro de Ascânio não podia fazê-la mais infeliz. Algumas lágrimas no ônibus de volta, depois o esquecimento.

Antes de despedir-se, Ascânio assume um ar solene, convida dona Antonieta para ser madrinha da inauguração festiva do calçamento, do jardim e dos bancos da Praça Modesto Pires, antes denominada Praça do Curtume; o curtume de peles fica próximo, na ribanceira do rio.

Obra da Prefeitura, contara com a ajuda do importante cidadão: Modesto Pires oferecera os três bancos de ferro. 

Agradecida e bajuladora, a Câmara Municipal decidira mudar o nome da Praça. A cerimónia será antes do Natal, com exibição de ternos de reis e do bumba-meu-boi de Valdemar Coto.

- Quem deve ser madrinha é dona Aída, mulher de seu Modesto. Ela ou bem… - ri descontraída, ligeiramente tonta, abusou dos licores - …Carol, ou as duas juntas para não haver injustiças…

Perturba-se Ascânio, dona Antonieta infunde-lhe um certo temor, nunca se sabe quando fala a sério e quando brinca:

- É que tem duas placas para serem descerradas. Uma, com o novo nome da Praça, quem vai puxar a fita é dona Aída. Mas a placa das obras, no obelisco, a mais importante, eu queria que fosse a senhora. Tive a ideia e meu padrinho, o coronel Artur, que é o Presidente da Câmara, achou óptima. Mandou que convidasse a senhora em nome dele.

Licores docíssimos, tantos brindes à sua saúde, Tieta flutua. Noite encantada, cálida, alegre. Quem é ela para paraninfar inauguração de praça pública? Aceita, comovida.

- Se não fosse por outra coisa, bastavam os telegramas que a senhora mandou para São Paulo sobre a luz eléctrica. Mesmo que não dê resultado, o gesto é valioso, a intenção merece…

- Nenhum gesto vale nada quando não dá certo, meu filho, Intenção? De que serve intenção, por melhor que seja? Na vida, somente os resultados contam, não se engane. Muito obrigado e boa noite.

Deixa os dois na porta, ri sozinha, à toa.


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