quinta-feira, junho 23, 2011

TEREZA


BATISTA
CANSADA
DE
GUERRA




Episódio Nº 134


Dos eloquentes relambórios, o do Senhor Prefeito, falando em nome da população gratíssima (um bando de ingratos, cépticos e burlões, haviam-no apelidado de Papa-Vacinas) foi o mais violento e conclusivo, afirmações peremptórias: com a completa extinção das epidemias, ingressava o município na idade de ouro da saúde e da prosperidade, já era tempo. Oração de fôlego, merecedora de efusivos parabéns do ilustre director.

Ainda ousou da palavra o jovem e talentoso doutor Oto Espinheira, recente na direcção do posto de saúde instalado em Buquim e, segundo ele, “completamente equipado e aparelhado, capaz de enfrentar qualquer contingência, servido por pessoal devotado e competente”. O simpático moço, herdeiro das tradições e do prestígio da família Espinheiro, preparava-se para a carreira política, de olho ma deputação. Discurso abre um apetite retado, devoraram banquetes.

Não decorrera um semana sobre a patriótica comemoração e a bexiga negra, desembarcando do trem de carga da Leste, por coincidência ou a propósito, derrubou entre os primeiros o Prefeito Papa-Vacinas, assim designado por ter-se envolvido, em troca de apoio político e comissão, em complicada trampolinagem de vacinas, vacinas para gado desviadas do município e vendidas a preço de nada a fazendeiros vizinhos; e não, como se escreveu, pela total ausência de vacinas contra a varíola no posto de saúde tão bem equipado. A culpa no caso não lhe cabia. Não cabia a ninguém, aliás: estando a varíola completamente erradicada e não havendo quem ali fosse viajar para o estrangeiro, para atrasados países da europa ainda sujeitos à peste, para que vacinar, me digam?


Apenas desembarcada, a bexiga derrubou no mesmo dia o prefeito, um soldado de polícia, a mulher do sacristão (a verdadeira, não a amásia, felizmente), um carroceiro, dois alugados da fazenda do coronel Simão Lamego – citando-se por ordem de importância e deixando-se para o fim três crianças e uma velha coroca, dona Aurinha Pinto, a primeira a morrer no sopro da doença, sem esperar o papoco das feridas no rosto, nas mãos, nos pés, no consumido peito, que ela não era besta de ficar apodrecendo em cima da cama, no sofrimento atroz; foi dar flor de pus no caixão, coisa feia de se ver.


E


Erradicada, uma ova! Triunfante, solta na cidade e no campo, a bexiga negra. Não anémico alastrim, varíola branca e correntia, constante companheira do povo nas roças e nos cantos de rua, a grosso e a retalho nas feiras, dada de graça.

Ao secar das pústulas a varíola se torna mais contagiosa ainda; nas estradas, nos mercados, nas feiras, as cascas das feridas espalham-se ao vento conduzindo avante compadre alastrim, garantindo-lhe permanente presença na paisagem do sertão.

Bexiga branca é limitado perigo, sendo de pouco matar gente grande – mata sempre um certo número para cumprir sua obrigação de doença mas, de tanto se demorar na região, o povo termina com ela se acostumando e estabelecendo regras de convivência: família de bexiguento não se vacina, não se alarma, não chama médico, usa mezinhas baratas, folhas do mato, só toma cuidado com os olhos, pouco se importando com o resto; contentando-se em troca o alastrim quase sempre em marcar os rostos, pinicar a pele, aplicar alguns dias de febre e delírio. (clik na imagem e aumente)

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