quinta-feira, outubro 06, 2011

TEREZA


BATISTA


CANSADA


DE


GUERRA





Episódio Nº 223




Não deu para padre, deu para chibungo. Tive de mandá-lo para o Rio antes que o pobre Milton pegasse o filho em flagrante atrás da bagaceira. Quem pegou fui eu, Tereza. Vibra-lhe a voz indignada, em fúria: - Vi com meus olhos um Guedes sendo montado, servindo de mulher. Perdi a cabeça e só não matei o desgraçado a rebenque porque, com os gritos, Íris e Irene acudiram e o levaram. Ainda hoje me dói a mão e sinto asco quando me lembro.

De outra feita Emiliano reparou numa cria da usina, brejeira, apetitosa, no ponto exacto, e a conduziu ao acolhedor refúgio de Raimundo Alicate. Silenciosa, obediente, ela o seguiu e o deixou fazer, quem sabe, grata pelo interesse do doutor; era cabaço, um torrão de açúcar. No descanso, Emiliano quis saber um pouco mais sobre a menina.

- Sou sobrinha do senhor, filha do doutor Milton e de minha mãe Alvinha.

Filhas naturais de Milton derrubadas no mato, quantas a exercer na Cia Dágua, em Cajazeiras do Norte, na Zona? Os filhos no eito, plantando e cortando cana, bebendo cachaça, sem pai declarado. Os de Cristóvão conhecem o pai e lhe pedem a bênção. Percebem salário mínimo na matriz e nas sucursais do Banco, porteiros, moços de recado, ascensoristas. Em troca, os dois legítimos abocanham altos salários, formados ambos em Direito, um assessor jurídico da Eximportex, outro do Interestadual, cargos a coonestar os ordenados dos dois Guedes, um casado, outro solteiro, ambos sem serventia além da boa vida.

- Uma vez, Tereza, obriguei um calhorda a engolir no meio da rua a engolir um artigo escrito contra mim e o meu povo. A seco, chorando e apanhando, engoliu tudo, era um longo artigo. Longo e verdadeiro, Tereza.

Uma desolação. Tereza se encolhe contra o sofrido peito do amante, ventos palustres invadem Estância, nuvem de lama apaga a lua.

34

O vulto de Tereza desaparece em direcção à alcova, Marina-se atira-se quarto adentro acompanhada do marido.

Emiliano, meu cunhado, que desgraça! – De joelhos. Junto à cama, em gritos de carpideira, pranto desatado, a bater nos peitos – Ai, Emiliano meu cunhado.

Cristóvão contempla o irmão, não se recompôs ainda da notícia, quase não pode acreditar na morte ali exposta. Da bebedeira só lhe resta a voz pastosa. Lúcido, com medo. Sem Emiliano sente-se órfão. Desde a morte do pai, ele menino, dependera do irmão. Como vai ser agora? Quem tomará o lugar vazio, assumirá o posto de comando? Milton? Não tem energia nem conhecimentos para tanto. Ainda se fosse tão-somente a usina, vá lá. Mas de negócios bancários, de empresas, de importação e exportação, de fretes e navios, Milton nada entende. Nem ele nem Cristóvão, tão pouco Jairo. Esse só sabe de cavalos, nas mãos dele a fortuna dos Guedes, por maior que seja, vai durar pouco. Jairo, nunca. Quem sabe porque é Emiliano.

- Ai meu cunhado, pobrezinho! – Marina cumpre a sua obrigação de parente próxima, os gritos lancinantes.

Túlio passa em frente de Cristóvão, sai do quarto. Apa continua aos pés do pai, a cabeça encostada contra o leito, sonolenta, bebeu demais. (clik na imagem)

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