segunda-feira, abril 23, 2012


GABRIELA CRAVO E CANELA

Episódio Nº 80



 - Vai contratar Dr. Maurício para a defesa.

 - Está em boas mãos. Vamos ter no júri o Velho e o Novo Testamento.

 - Também… nem precisa de advogado. Absolvição certa. O Capitão voltava-se segurando uma pedra do gamão, desafogava:

 - Esse Maurício é um saco de hipocrisia… Viúvo descarado.

 - Dizem que não há negrinha que se aguente nas suas mãos…

 - Já ouvi falar…

 - Tem uma, do morro do Unhão, vem quase toda a noite para sua casa.

Na porta do cinema voltavam a aparecer o Príncipe e Anabela, Diógenes a comboiá-los com sua cara triste. A mulher tinha um livro na mão.

 - Vêm para cá… - murmurou o coronel Ribeirinho.

Levantavam-se à aproximação de Anabela, ofereciam cadeiras. O livro, um álbum encadernado em couro, passava de mão em mão. Continha recortes de jornais e opiniões manuscritas sobre a dançarina.

 - Depois de minha estreia quero a opinião dos senhores todos – Estava de pé, não aceitara sentar-se: « Já vamos para o hotel», encostava-se na cadeira do coronel Ribeirinho.

Estrearia no Cabaré naquela mesma noite, no outro dia exibir-se-iam, ela e o Príncipe, no cinema, em números de prestidigitação.

Ele hipnotizava, era um colosso na telepatia. Acabavam de fazer uma demonstração para Diógenes; o dono do cinema confessava nunca ter visto nada igual.

No átrio da igreja, as solteironas, já tão excitadas com o duplo assassínio, fitavam a cena, apontavam a mulher:

 - Mais uma para virar a cabeça dos homens…

Anabela perguntava numa voz meiga:

 - Ouvi dizer que hoje ouve um crime aqui?

 - Verdade, um fazendeiro matou a mulher e o amante.

 - Coitadinha… – comoveu-se Anabela, e essa foi a única palavra a lastimar o triste destino de Sinhàzinha nessa tarde de tantos comentários.

 - Costumes feudais… – pronunciou Tonico Bastos voltado para a dançarina – aqui ainda vivemos no século passado.

O Príncipe sorria, desdenhoso, aprovou com a cabeça, engoliu a cachaça pura, não gostava de misturas. João Fulgêncio restituiu o álbum, onde lera elogios ao trabalho de Anabela. O casal despedia-se. Ela queria descansar antes da estreia.

 - Espero hoje todos no Bataclan.

 - Lá estaremos com certeza.

As solteironas enchiam o átrio da igreja, escandalizadas, persignavam-se. Terra de perdição, essa de Ilhéus…

No portão da casa do coronel Melk Tavares, o professor Josué conversava com Malvina. Glória suspirava em sua janela solitária. A tarde caía em Ilhéus.

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